Uma refutação ao espiritismo maio 15, 2010
Posted by Gustavo Reichenbach in : Debates religiosos , 4commentsO texto a seguir é de autoria de Caio Rossi, e retirado do site http://www.evanessencias.com/?s=espiritismo , e não expressa necessariamente a nossa opinião.
Introdução
Neste feriado estreou nos cinemas uma produção da Globo Filmes, “Chico Xavier”, longa-metragem sobre a vida do famoso médium brasileiro. Na próxima semana estréia na Rede Globo a nova novela das seis, “Escrito nas Estrelas”, de temática também espírita. A mesma rede de televisão exibiu até recentemente a reprise de “Alma Gêmea”, novela de igual temática. As Organizações Globo parecem estar mais empenhadas em nos converter ao Espiritismo do que o “25ª Hora” em nos arrancar doações para a IURD.
E os esforços vêm de multinacionais também. A Fox Filmes do Brasil está co-produzindo a versão cinematográfica de “Nosso Lar”, “clássico” de Chico Xavier atribuído ao espírito André Luís, que estréia em setembro deste ano. O trailer impressiona (para assisti-lo, visitem o site oficial , cliquem em “Vídeos” e então escolham o Teaser-Trailer 1). Nunca vi efeitos visuais tão bem cuidados no cinema nacional (não surpreendentemente, produzidos por uma empresa canadense).
2010 promete ser um longo e interminável Dia de los Muertos aqui no Brasil, pois haverá o lançamento, segundo a Folha de São Paulo, de 6 filmes de cunho espírita. Dadas as alternativas de aquém túmulo, se Juscelino Kubistchek vencer as eleições presidenciais e passarmos a ser governados através da médium arroz-de-festa Márcia Fernandes, até que a idéia não será muito ruim. Mas antes que a Terra de Santa Cruz vire a Terra da Mesa Branca, ofereço aos leitores deste blog algumas informações e reflexões sobre o Espiritismo que vocês provavelmente não encontrarão em outro lugar.
Espiritismo e espiritualismo: tomando a parte pelo todo.
Pouquíssimos “espíritas” ou aqueles que se dizem simpatizantes do “Espiritismo” sabem exatamente a que estão se referindo. A confusão está tão arraigada que só concebo explicá-la lançando mão de uma comparação com a ufologia: no final da década de 40 iniciou-se o período chamado de ufologia moderna. A partir de então, diversos fenômenos no céu e na terra passaram a ser creditados à ação de inteligências extraterrestres. Apesar de vários indivíduos ou grupos, no que se convencionou chamar de “ufologia esotérica”, afirmarem ter uma explicação mais profunda para esses fenômenos, sua relação com a criação e o sentido da vida, etc., nenhum deles veio com uma “doutrina ufológica” que fosse aceita por todos os envolvidos e se confundisse com os fenômenos relacionados. Ninguém que tenha avistado fenômenos atmosféricos anômalos ou padrões que se formam misteriosamente em plantações por todo o mundo e que acredite em sua origem extraterrestre se sente inescapavelmente compelido a aceitar as mensagens de Ashtar Sheran ou as pregações do (todavia impressionante) Prophet Yahweh.
No Brasil, no entanto, quando uma pessoa admite que a origem de certos fenômenos paranormais é os espíritos dos mortos, ela tende a dizer, como se fosse a mesma coisa, que “acredita no Espiritismo”. A impropriedade de tamanho salto pode ser explicada com a leitura atenta de qualquer obra básica sobre o assunto. Esses fenômenos – que passarei a chamar de “mediúnicos”, mas sem com isso tomá-los pelo que o termo sugere – se iniciaram no século XIX, em Hydesville, uma pequena cidade americana, através das irmãs Fox, e se expandiram posteriormente, aportando na Inglaterra e então chegando à Europa continental.
Assim como os fenômenos ufológicos, eles não carregavam consigo uma “doutrina”. Eram somente fenômenos. Os supostos espíritos comunicantes divergiam em suas “mensagens”, e é por isso que os espíritas dizem – mesmo que já não o saibam mais – que Allan Kardec foi o “codificador” da “doutrina espírita”, que ele atribuiu a espíritos, mas não a todos os espíritos.
Uma das melhores fontes para entender esse período é o livro “A História do Espiritismo” – tradução inapropriada do título, como se verá abaixo -, escrito por Arthur Conan Doyle, o famoso criador de “Sherlock Holmes”. Os volumes I e II do original em inglês podem ser lidos online, e um resumo da obra em português também pode ser baixado gratuitamente. Reproduzirei alguns trechos do resumo do capítulo 21, que tive o cuidado de comparar ao original para me certificar de que o conteúdo não havia sido alterado:
O Espiritismo na França e nas raças latinas concentra-se em torno de Allan Kardec, que prefere o termo Espiritismo, e sua feição predominante é a crença na reencarnação.
… Em 1850, quando as manifestações espíritas americanas chamavam a atenção da Europa, Allan Kardec investigou o assunto através da mediunidade de duas filhas de um amigo.
Nas comunicações obtidas foi informado de que “Espíritos de uma categoria muito mais elevada do que os que habitualmente se comunicavam através dos dois jovens médiuns, tinham vindo especialmente para ele, e queriam continuar a vir, a fim de lhe permitir desempenhar uma importante missão religiosa…
Kardec achava que os vocábulos espiritual e espiritualista, como espiritualismo já possuíam uma significação definida. Assim os substituiu por espiritismo e espírita ou espiritista”.
O título original do livro de Doyle é “History of Spiritualism”, não “History of Spiritism”, como sugere a tradução brasileira. “Espiritismo”, relembro o leitor, é um termo cunhado – em francês, obviamente – por Kardec para se referir à doutrina que ele havia desenvolvido com base nos fenômenos mediúnicos. Essa escolha da editora brasileira confunde o leitor, pois em trechos como o reproduzido acima, que explica a diferença terminológica, usam-se os vocábulos “Espiritismo” (“O Espiritismo na França…”) e “espírita” (“as manifestações espíritas americanas”) onde, no original, constam “Spiritualism” e “spirit”, respectivamente .
O mesmo ocorre quanto à crença na reencarnação, parte integrante do Espiritismo de Kardec: esse não era um ensinamento universal, de todos os “espíritos” que estariam se comunicando, como explica Conan Doyle:
“A filosofia espírita se distingue por sua crença em nosso progresso espiritual, que é realizado através de uma série de reencarnações…”
“Se distingue”, conforme se lê no trecho acima, refere-se à distinção entre o reencarnacionismo da “filosofia espírita” e a crença dos espiritualistas em geral. Doyle prossegue (alterei abaixo o termo “Espiritismo” por “Espiritualismo”, e fiz o mesmo com seus derivados, quando apropriado, conforme explicação acima e como pode ser verificado no original):
Os espiritualistas ingleses não chegaram a uma conclusão no que se refere à reencarnação.
Alguns a aceitam, outros não. A atitude geral é que, como a doutrina não pode ser provada, o melhor seria excluí-la da política ativa do Espiritualismo. Explanando essa atitude, Miss Anna Blackwell sugere que, sendo a mente continental mais receptiva de teorias, aceitou Allan Kardec, enquanto a mente inglesa, geralmente declina de considerar qualquer teoria enquanto não se tiver certificado dos fatos admitidos por tal.
Mr. Thomas Brevior (Shorter) um dos redatores de The Spiritual Magazine, resume o ponto de vista prevalecente dos espiritualistas ingleses de hoje. Escreve ele:
“Quando a Reencarnação assumir um aspecto mais científico, quando puder oferecer um demonstrável conjunto de fatos que admitam verificação como os do Moderno Espiritualismo, merecerá ampla e cuidadosa discussão. Por enquanto, que os arquitetos da especulação se divirtam como quiserem, construindo castelos no ar. A vida é muito curta e há muito que fazer neste mundo atarefado, para que deixemos os vagares e as inclinações a fim de nos ocuparmos em demolir essas estruturas aéreas ou apontar os frágeis alicerces em que se assentam. É muito melhor trabalhar naqueles pontos em que concordamos, do que nos engalfinharmos sobre aqueles em que parece que divergimos tão desesperadamente.”
William Howitt, um dos pioneiros do Espiritualismo na Inglaterra, é ainda mais enfático em sua condenação à reencarnação. Depois de citar Emma Harding Britten, na sua observação de que milhares do Outro Mundo protestam, através de distintos médiuns, que não têm conhecimento nem provas da reencarnação, diz:
“A coisa abala as raízes de toda a fé nas revelações do Espiritualismo. Se formos levados a duvidar das comunicações dos espíritos sob o mais sério aspecto, sob as mais sérias afirmações, onde está o Espiritualismo?
“… Se a reencarnação for uma verdade, lamentável e repelente como é, deve ter havido milhões de Espíritos que, ao entrarem no outro mundo, em vão terão procurado os seus parentes, os filhos, os amigos… Já teria chegado a nós esse sussurro de milhares, de dezenas de milhares de Espíritos comunicantes? Nunca. Podemos, portanto, só nesse campo, considerar falso o dogma da reencarnação como o inferno do qual ele brotou”.
Mr. Howitt, entretanto, em sua veemência, esquece que deve haver um limite antes que se realize a nova reencarnação, e que, também, no ato deve haver um elemento da vontade.
O Hon. Alexander Aksakof, num artigo muito interessante dá os nomes dos médiuns do grupo de Allan Kardec, com uma descrição deles. E também indica que a idéia da reencarnação era fortemente aprovada na França naquele tempo, como se pode ver do trabalho de M. Pezzani – “A Pluralidade das Existências”, bem como de outros. Escreve Aksakof:
“É claro que a propagação desta doutrina por Kardec foi matéria de forte predileção.
“De início a reencarnação não foi apresentada como objeto de estudo, mas como um dogma. Para o sustentar, recorreu com freqüência a escritos de médiuns, que, como bem sabemos, facilmente se submetem à influência de idéias preconcebidas. E o Espiritismo as produziu em profusão. Enquanto que através de médiuns de efeitos físicos não só as comunicações são mais objetivas, mas sempre contrárias à doutrina da reencarnação. Kardec seguiu o rumo de sempre desprezar esse tipo de mediunidade, tomando como pretexto a sua inferioridade moral. Assim, o método experimental é, de modo geral, desconhecido no Espiritismo.
“Durante vinte anos ele não fez o menor progresso intrínseco e ficou em completa ignorância do Espiritualismo anglo-americano. Os poucos médiuns franceses de fenômenos físicos que desenvolveram seus dons a despeito de Kardec, jamais foram mencionados na “Revue”; ficaram quase que desconhecidos dos Espíritas e apenas porque os seus guias não sustentavam a doutrina da reencarnação.”
Acrescenta Aksakof que as suas observações não afetam a questão da reencarnação no abstrato, mas apenas no que respeita à sua propagação sob os auspícios do Espiritismo.
Comentando o artigo de Aksakof, D. D. Home deu um impulso a uma fase da crença na reencarnação. Diz ele.
“Encontro muita gente que é reencarnacionista e tive o prazer de encontrar pelo menos doze que tinham sido Maria Antonieta, seis ou sete que tinham sido Mary, Rainha da Escócia; um bando, de Luiz e outros reis; cerca de vinte Alexandre, o Grande. Mas ainda não encontrei ninguém que tivesse sido um simples John Smith. E vos peço que, se o encontrardes, guardai-o como uma Curiosidade”
O caráter local do “Espiritismo” fica ainda mais evidenciado quando lemos o que Conan Doyle escreveu sobre o colorido alemão do movimento espiritualista:
…Algumas páginas especiais, entretanto, devem ser dedicadas à Alemanha.
Posto que moroso até seguir um movimento organizado, pois só em 1865 é que apareceu um jornal espiritualista – Psyche – e se estabeleceu no país, mais do que em qualquer outra parte, teve aí o Espiritualismo uma tradição de especulação mística e de experiência mágica, que deveria ser considerada uma preparação para a revelação definitiva. Paracelsus, Cornelius Agripsa, van Helmont e Jacob Boehme se acham entre os pioneiros do Espiritualismo, sentindo o seu caminho fora da matéria, embora vago o objetivo, que tivessem atingido. Algo mais definitivo foi alcançado por Mesmer, que realizou seu maior trabalho em Viena, no último quartel do século dezoito. Conquanto enganado quanto a algumas de suas inferências, foi ele quem deu o primeiro impulso para a dissociação entre alma e corpo, antes do atual modo de sentir da humanidade…
Enquanto na França de Kardec o “Espiritualismo” assimilou o racionalismo francês, na Alemanha foi a tradição teosófica filtrada pelo idealismo que parece ter, segundo Conan Doyle, exercido maior influência.
René Guénon, em “O Teosofismo – história de uma pseudo-religião” e “O Erro Espírita”, afirma que a idéia da reencarnação foi defendida por Gothhold Ephraim Lessing na Alemanha na segunda metade do século XVIII, e posteriormente pelos socialistas utópicos franceses Charles Fourier e Pierre Leroux, talvez, segundo Guénon, pela influência do alemão. Enquanto essa idéia circulava nos meios intelectuais alemães e franceses, Allan Kardec, por sua vez, circulava entre os socialistas utópicos da França, como se confirma no site espírita Pense (Pensamento Social Espírita):
“Ao que parece, [Kardec] manteve relações com os socialistas (depois chamados de utópicos por Marx e Engels), pois em sua fase espírita, os cita constantemente, entre eles, Fourier, e Saint-Simon. (Robert Owen, por sua vez, recebeu influência de Pestalozzi, pois o visitou em Iverdon e mais tarde tornou-se adepto do Espiritismo). O pesquisador francês François Gaudin descobriu recentemente documentos ainda inéditos, revelando a parceria de Kardec com o amigo Maurice Lachâtre, conhecido socialista de tendência anarquista e editor das obras de Marx, em fascículos populares. Ambos tiveram um projeto economicamente fracassado da fundação de um banco popular, possivelmente nos moldes do que queriam os socialistas pré-marxianos e os anarquistas, como Proudhon”.
No mundo anglo-saxão, evidenciando outra influência cultural no desenvolvimento local do “Spiritualism”, ele tomou uma forma também diferente da francesa, estabelecendo-se não em torno de “centros”, mas de igrejas (isso tanto na Inglaterra como nos EUA). René Guénon, por sua vez, afirma que o reencarnacionismo só foi amplamente introduzido nos Estados Unidos posteriormente, por influência da Sociedade Teosófica de Mme. Blavatsky, que assimilara a idéia do meio espírita na Europa continental.
A conseqüência lógica do que foi dito até agora é que os fenômenos ditos “mediúnicos”, mesmo para quem acredita que tenham origem em espíritos dos mortos, não deveriam significar necessariamente a adesão à “doutrina espírita” de Allan Kardec.
Os diferentes espiritismos
Além das diferentes tendências do Espiritualismo, há ainda as diversas subdivisões dentro do Espiritismo e as que surgiram a partir dele. A grande maioria dos espíritas ignora que, até o aparecimento de Chico Xavier, o meio espírita brasileiro tinha contornos muito menos “devocionais”, como é regra na maioria, senão em todos os países em que o Espiritismo de Kardec se expandiu, com exceção do nosso. No restante da América Latina, por exemplo, assim como em Portugal, predominou uma versão racionalista, socializante e laicizante – que talvez explique sua baixa popularidade nesses locais. Em geral, fora do Brasil seus raros adeptos são humanistas, e vêem como distorção “católica” ou “igrejeira” a predominância do “Evangelho segundo o Espiritismo” em nosso país em detrimento do “racionalista” “Livro dos Espíritos”.
A antropóloga Ana Jacqueline Stoll, em entrevista ao Jornal do Brasil em 2004, quando do lançamento de seu livro “Espiritismo à brasileira”, pela Edusp, abordou esse ponto:
“Sandra identificou novas linhas de força da religião espírita, desde o início dividida entre uma corrente cientificista, predominante na Europa, e outra que privilegia o aspecto moral, hegemônica no Brasil…”
“- No livro, você compara a doutrina espírita francesa, fundada por Allan Kardec, com a brasileira. Elas acabaram se tornando religiões diferentes? Ou as diferenças são, basicamente, resultantes de comportamentos culturais distintos?
- A doutrina de Allan Kardec teve uma larga difusão na França, assim como no Brasil, no século 19. Nestes dois países, porém, as características assumidas pela doutrina não foram as mesmas. Na França, a produção das obras de Allan Kardec tinha como tema central a teoria da evolução. Essa era a tônica dos debates científicos e religiosos na Europa na época. Já no Brasil, apenas em círculos sociais restritos esse debate encontrou ressonância. Em contrapartida, o aspecto moral da doutrina espírita foi rapidamente assimilado, por seu estreito comprometimento com o ideário cristão. O que demonstro no livro é que esse ideário foi aqui reinterpretado, criando-se um ”estilo católico de ser espírita”. O médium Chico Xavier é o paradigma dessa construção. Sua imagem pública foi construída com base na noção católica de santidade. Isso se expressa no estilo de vida por ele adotado, marcado pela incorporação gradativa dos votos monásticos católicos: obediência, castidade, renúncia aos bens materiais. Traduzidas como ‘’sacrifício de si”, essas práticas, juntamente à caridade, também assimilada do universo católico, conferem ao espiritismo uma marca arraigadamente católica, cultura religiosa dominante no país…
- Quais seriam as principais tendências do espiritismo brasileiro hoje?
- O espiritismo de ”viés católico”, consolidado em torno da imagem pública de Chico Xavier, ainda é hegemônico no Brasil, mas no interior deste vêm sendo gestadas novas tendências. Hoje temos duas correntes dominantes: uma, a exemplo da orientação de Kardec, vem buscando a inovação da doutrina por meio da atualização de seus conceitos científicos; a outra busca no campo religioso sua atualização, incorporando idéias e práticas de sistemas filosóficos/doutrinários diversos, precariamente reunidos em torno do rótulo de Nova Era e com grande ênfase na auto-ajuda. A Nova Era e as novas idéias científicas relativas às origens e evolução do universo tornaram-se as suas principais fontes contemporâneas de inspiração…
Essa diferença relatada pela antropóloga fica clara ao se constatar o contraste entre o sentimentalismo piegas típico do meio espírita brasileiro em geral e a “frieza” dos sites da portuguesa Adep, da Cepa (Confederação Espírita Pan-Americana), ou do já citado Pense (Pensamento Social Espírita), cuja página de abertura exibe essa citação “socialista” de Kardec:
A aspiração por uma ordem superior de coisas é indício da possibilidade de atingi-la. Cabe aos homens progressistas ativar esse movimento pelo estudo e aplicação dos meios mais eficazes.”
No Brasil, devido à figura emblemática de Chico Xavier, que se impôs como autoridade moral no meio, acabou por se formar um certo consenso em torno de seu nome e de suas obras, e até mesmo representantes nacionais dessa vertente “socialista” e “racionalista” buscam confirmar suas posições nas obras desse médium.
O que não parecem saber, e não sei se o novo filme aborda a questão – e realmente me surpreenderia se o fizesse -, é que a primeira reação contra seus livros veio de dentro do próprio meio espírita. O que mais dificultou a aceitação de suas obras entre os espíritas no passado foram as descrições do “mundo espiritual” como algo muito próximo do que temos na Terra, fugindo muito do que estava explícito ou implícito nos livros de Allan Kardec. É esse “mundo espiritual super-materializado” que verão no filme “Nosso Lar” (curiosidade: esse seria o nome de uma colônia dentro do “Umbral”, termo que o médium introduziu para se referir a um tipo de “inferno” espírita. Teria sido fundada por descendentes dos primeiros portugueses em uma região do Umbral que ocuparia alguma parte do céu do Rio de Janeiro. Eram espíritos de “cristãos novos” degredados para o Novo Mundo. Por isso, essa colônia teria o formato da Estrela de David. O filme chega ao requinte detalhista de reproduzir isso, como pode ser visto no trailer recomendado na Parte 1, na altura dos 2 minutos e 26 segundos, no canto inferior esquerdo).
Herculano Pires, pensador espírita altamente respeitado por Chico Xavier – que o considerava “o homem que melhor compreendeu Kardec” -, sendo que chegaram a escrever um livro em parceria, preferia manter-se mais fiel à visão anterior, herdada de Allan Kardec, e criticar os que chamou de “chiquistas”. De seu “Chico Xavier: o homem, o médium e o mito”, texto de 1975 que infelizmente não encontrei online:
“…Tomam por realidades espirituais as alegorias e analogias das obras de André Luiz, esquecidos do exemplo citado pelo próprio Emmanuel, num de seus prefácios para essa obra, do macaco que voltasse da cidade para o mato e quisesse explicar aos companheiros como vivem os homens: em florestas de cimento, com pelos postiços que os homens podem vestir e desvestir e assim por diante”.
Mesmo há mais de 3 décadas esse aviso de Herculano Pires veio tarde demais, pois tais descrições já haviam sido incorporadas pelo imaginário espírita local, e foram aparecendo também nas “comunicações” recebidas pelos médiuns que liam suas obras. Depois da versão cinematográfica de “Nosso Lar”, Herculano Pires será voz mais vencida do que já é (se é que tal coisa é possível).
Do mesmo texto:
“Chico Xavier é ainda… o caipirinha mineiro de Pedro Leopoldo. Não é sábio nem santo. É um homem comum, dotado de faculdades mediúnicas excepcionais…”
Sobre a descrição detalhada de vida inteligente em outros planetas do nosso sistema solar, como Vênus e Marte, no livro “Cartas de uma Morta”, que Chico Xavier atribuiu ao espírito de sua mãe, e que sabemos hoje ser completamente contrariada pelos fatos, Herculano Pires diz o seguinte:
“A responsabilidade do médium é ressalvada pela sua atitude humilde, mas às vezes o próprio médium, assediado pelo fanatismo dos chiquistas e não querendo contrariá-los, chega a tentar a justificativa de certos enganos, como o fez na televisão sobre o caso de Marte, considerando-o mundo superior de antimatéria…”
Até meados dos século XX ainda era possível dar o benefício da dúvida a quem escrevesse sobre canais na Lua ou cidades em Saturno. O “caipirinha mineiro” não contava com a possibilidade de que o advento dos foguetes do nazista fundador da Nasa, Wernher Von Braun , que abriu a era dos vôos espaciais, sondas e telescópios orbitando a Terra, destruísse a fantasia que atribuiu, conscientemente ou não, ao fantasma de sua mãe. Sua mãe não estaria errada, segundo ele: é que as cidades e seres que descreveu em Marte seriam de antimatéria! O que impediria essa antimatéria de reagir com o restante da matéria do planeta e fazer desaparecer todo o Sistema Solar são detalhes técnico enfadonhos dos quais o médium, o homem e o mito preferiu nos poupar por pura caridade.
Mais falhas são encontradas em outras obras que diz ter psicografado. O site Criticando Kardec, de um espírita que se dispôs a encarar publicamente esses problemas, compila uma série do que ele prefere chamar de “possíveis” erros nas obras de Chico Xavier e Divaldo P. Franco (médium de que tratarei abaixo).
Uma outra “tendência” dentro do Espiritismo brasileiro, e que também apostou na descrição da vida em outros planetas de nosso sistema solar, é composta pelos seguidores de Ramatís, “guia espiritual” de inclinação “universalista”, que, por uma grande coincidência, escrevia através de Hercílio Maes, médium que, “antes de se tornar ‘espírita’, foi teosofista, maçon e rosacruz”. Seus livros, por se distanciarem demais do que era convencional no meio espírita, e por não terem sido escritos “através” de um médium carismático como Chico Xavier, foram renegados pelos “formadores de opinião” do movimento . Eles não atinaram para o fato de que o próprio Chico, no entanto, não era contrário às obras de Ramatís. E posso dar meu testemunho pessoal quanto a isso, já que certa vez conversei com um dos irmãos de Chico, então dono de uma livraria espírita no centro de São Paulo que vendia os livros de Ramatís. Ele me assegurou que seu irmão foi sempre um leitor assíduo dos livros de Hercílio Maes. Curiosamente, aliás, o nome desse irmão é André Luis, em homenagem a quem o espírito autor de “Nosso Lar” teria adotado o pseudônimo. A propósito, sua verdadeira identidade é atribuída ao espírito de Oswaldo Cruz – segundo fontes ligadas a Chico Xavier – e a Carlos Chagas – segundo Waldo Vieira, médium cujos talentos foram reconhecidos por Chico, com quem até “co-psicografou” “Evolução em Dois Mundos”, obra mais “técnica” da série “Nosso Lar” (em que, em outra fenomenal coincidência, os capítulos com terminologia mais científica foram psicografados por Waldo, que é médico).
Conforme avançamos nos anos 90, o país foi se abrindo para o mundo e a literatura de auto-ajuda americana sendo traduzida e publicada por aqui. Médiuns espíritas até então convencionais, como o viajado Luís Antônio Gasparetto, e sua mãe, a famosa Zíbia Gasparetto, distanciaram-se da vertente “devocional” estabelecida por Chico Xavier – que, por influência de sua formação católica, nunca deixou de se referir ao “espírito de luz” Jesus como “Nosso Senhor Jesus Cristo”. Ambos reconheceram esse distanciamento em matéria da Revista Época.
Outro médium cuja “mentora espiritual”, Joanna de Angelis, se adaptou aos novos rumos do mercado foi Divaldo Franco. Ela, que até então somente lhe ditava obras de conteúdo semelhante ao das “psicografadas” por Chico Xavier, também modernizou a temática com sua “Série Psicológica”, composta de 12 livros. Há algumas décadas, esse médium baiano foi protagonista de um escândalo envolvendo Chico Xavier. Até então cotado para ser o substituto do seu congênere mineiro, foi pego plagiando o colega famoso, o que foi reportado pelo programa Fantástico muito tempo depois e que se confirma através de carta de Herculano Pires, disponível online. Chico Xavier rompeu com Divaldo por cerca de 40 anos devido ao ocorrido. Esse fato é muito bem conhecido nos corredores do meio espírita, cujos dirigentes fazem o possível para evitar escândalos e manter as aparências.
Outra tendência de origem espírita mas que, como os Gasparetto, acabou tomando novos rumos, foi a “projeciologia” e a “conscienciologia” fundadas pelo já citado Waldo Vieira. Como disse acima, Waldo havia sido médium juntamente como Chico Xavier, mas acabou deixando o amigo (alegam-se diferentes razões para isso, mas prefiro não propagar fofocas de bastidores que não posso confirmar) e se dedicando à cirurgia plástica e a suas pesquisas pessoais na área de “experiências fora-do-corpo” (desdobramento ou projeção astral, daí o termo “projeciologia”, que cunhou). Nesse meio tempo ele se casou com uma estrangeira, herdeira da empresa de bebidas Brahma, cuja venda lhe disponibilizou o capital necessário para investir de forma muito mais substancial em seus projetos.
Waldo Vieira lançou um calhamaço denominado “Projeciologia”, cuja primeira edição, de 5 mil exemplares, foi distribuída gratuitamente para pessoas que se demonstravam genuinamente interessadas no tema. Fui um dos agraciados no dia de seu lançamento, na Federação Espírita do Estado de São Paulo. Waldo Vieira voltava então ao meio cercado de espíritas “intelectualizados” do Rio de Janeiro, onde residia, trazendo consigo influências parapsicológicas, teosóficas e ramatistas, todas elas unificadas por um empirismo cientificista radical. Antes de seu retorno retumbante, segundo comunicação pessoal de uma de suas convidadas, reuniu uma série de médiuns e pesquisadores ligados ao Espiritismo – como Hernani Guimarães Andrade – para anunciar seus planos de dar novos rumos ao movimento espírita, aproximando-o do que considerava ser mais “cientificamente racional” e distanciando-o do emocionalismo devocional de origem católica. Com o tempo, notou que sua proposta não estava sendo bem recebida no meio, e então decidiu partir para novos rumos em seu “Centro da Consciência Contínua” (mais tarde denominado Instituto Internacional de Projeciologia, e, posteriormente, Instituto Internacional de Projeciologia e Conscienciologia), abandonando o rótulo “espírita”, como fez a família Gasparetto.
Muitos adeptos do Espiritismo ficam indignados com os Gasparetto e Waldo Vieira, pois não só acreditam, com base em Allan Kardec, que a “doutrina espírita” é o ápice da evolução humana na Terra, como confundem Espiritismo com Espiritualismo. Ignoram completamente o que foi explicado anteriormente: que a “doutrina espírita” é uma racionalização dos fenômenos mediúnicos de alcance regional somente; que Allan Kardec não está para esse fenômenos como Jesus Cristo para os “dons do Espírito Santo” distribuídos no Pentecostes.
E essas variações regionais ocorrem mesmo dentro do Espiritismo brasileiro: a Federação Espírita Brasileira, com sede no Rio de Janeiro, tem influências completamente diferentes das sofridas pela Federação Espírita do Estado de São Paulo, destacando-se a controvérsia sobre a obra de Roustaing, que afirmava que Jesus Cristo tinha um “corpo fluídico”, que é defendida pela FEB e rejeitada pela FEESP.
A FEESP, por sua vez, apesar de se dizer a guardiã de um Espiritismo genuinamente “kardequiano”, foi alvo de Herculano Pires, no livro supra-citado, escrito em dupla com Chico Xavier e denominado “Na Hora do Testemunho”, em que denuncia adulterações da obra de Allan Kardec cometidas em tradução publicada pela FEESP, em um caso que merece ser analisado por configurar talvez um dos primeiros exemplos de adaptação politicamente correta de uma tradução para o português.
Mas voltando a Waldo Vieira: ele fez mais do que deixar o movimento espírita. Ele soltou a língua. E soltou feio. Waldo fez revelações, em vídeo disponível no Youtube, sobre como as mensagens mediúnicas com detalhes da vida do morto são fraudadas. A transcrição abaixo vem do site Obras Psicografadas:
“A mesma coisa aquelas mensagens que o Chico recebia. Você sabe que essas mensagens psicografadas, da pessoa que morreu assim, eles mandam a carta com os detalhes para a pessoa colocar na mensagem psicografada, né? Tem médium que ainda está recebendo essas mensagens até hoje. Eu nunca recebi uma mensagem assim. Agora, o pior disso é aquilo que eu falo para vocês, a natureza humana não falha. Quando eu deixei o movimento espírita, me mandaram umas cartas dessas pra mim pra eu receber mensagens pras pessoas. Eu queimei as cartas, só para não envolver ninguém. Então eles mandavam, ‘ó, o apelido dele é esse, a tia que ele gosta é essa, a madrinha dele, a dindinha, é a fulana, ela mora assim e assim.’ Tudo para haver uma relação. ‘O avô que ele gostava muito morreu no ano tal.’ Agora, eles mandavam essas cartas com tudo já mastigado para você colocar. Tudo carta marcada, jogo de carta marcada. Foi por isso que quando Souto Maior teve aí eu falei com ele. ‘Olha, você já viu isso?’ ‘Eu já’. Ele já tinha visto! Todo mundo que vai estudar isso acaba vendo, porque vai encontrar isso aí. E ele até sabe, tem médium que ele evita. Porque ele sabe que tem médium até hoje que ainda tão recebendo essas coisas e fazendo aí um auê, né? Isso dá ibope. Sabe, o processo seguinte faz média com muita gente, etc. Então a mãe faz média, o médium faz média, o centro espírita faz média, é um monte de coisa. Agora, ó… se você observar, lá em Uberaba, na minha época, o Chico não recebia essas mensagens. Por que é que ele não recebia? Porque eu falei com ele: ‘Olha, se tiver isso, eu caio fora já!’ Se você agüentar um tempo eu sigo as coisas pra melhorar a sua vida aqui e todo o trabalho. Tinha várias coisas… Outra coisa, vocês nunca viam, naquelas reuniões que faziam de efeitos físicos, eu não aparecia… porque ela era fajuta… a dele. Tudo isso… Hoje eu falo porque as coisas todas já passaram, é bom a gente clarear as coisas, porque a natureza humana não falha”.
Waldo Vieira diz acima que ele e Chico, com quem cooperou, não estavam envolvido nas fraudes de mensagens e nem nas fajutas sessões de materialização em Uberaba, que, não obstante, ocorreram também em seu consultório.
O site Obras Psicografadas complementa a transcrição acima com algumas considerações muito pertinentes sobre o depoimento de Waldo Vieira:
Waldo Vieira diz: Outra coisa, vocês nunca viam, naquelas reuniões que faziam de efeitos físicos, eu não aparecia… porque ela era fajuta… a dele.
.O trecho está entre 3:47 e 3:48.
A médium Otília Diogo, que realizou sessões de materialização com Chico Xavier, foi pega em fraude anos depois interpretando a irmã Josefa.
Há a descrição em ao menos dois livros da materialização do senador Públio Lêntulos, episódio esse que nitidamente foi fraude, uma vez que tal personagem jamais existiu na época descrita (contemporâneo de Cristo). Para detalhes de porque tal episódio foi uma fraude perpetrada por Chico, ler aqui.
Considerando-se as influências humanas no conteúdo das mensagens – como no caso da crença na reencarnação, na vida em outros planetas de nosso sistema solar e da literatura de auto-ajuda espírita -, a variação, no tempo e espaço, de como os supostos “espíritos” teriam descrito o “mundo espiritual” – da forma mais sóbria do “Espírito da Verdade” em “O Livro dos Espíritos” às “cidades astrais” hi-tech de Chico Xavier, que se tornaram padrão nas “mensagens” de médiuns brasileiros – e as fraudes confessas e as evidentemente ocultadas, é impossível alguém minimamente racional levar a sério as mensagens de Chico Xavier ou de qualquer outro médium menor.
Minha posição quanto aos fenômenos mediúnicos
Considero o livro “O Erro Espírita”, de René Guénon, a melhor crítica já escrita ao Espiritismo e ao Espiritualismo em geral. O autor consegue demolir as principais falácias da “doutrina espírita” – confirmando a propriedade do título da tradução para o inglês: The Spiritist Fallacy – e expor ao ridículo seus principais expoentes até então. O único problema é que algumas de suas críticas, como aquela feita à idéia de reencarnação, dependem do conhecimento e concordância do leitor com a composição tripartite do ser-humano e a compreensão de como isso implica primordialmente na conceituação guenoniana (e tradicional) de “personalidade” e “individualidade”. Ele não consegue demonstrar, sem depender da diferença entre esses dois conceitos e uma série de outros conexos, os quais ele nem faz questão de explicar, que a comunicabilidade dos santos mortos com os vivos é possível mas não a de um defunto comum.
O melhor argumento para derrubar especificamente a “doutrina espírita” é apontar o fato de que a realidade, conforme descrita nas partes anteriores e como pode ser verificado no dia-a-dia, não corrobora as condições que o próprio Allan Kardec estabeleceu para validar o Espiritismo. Refiro-me àquelas expostas em seu “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, capítulo II, denominado “Autoridade da Doutrina Espírita: Controle universal do ensino dos espíritos”. Os trechos destacados em negrito são uma sucessão de tiros que Kardec dá em seu próprio pé, pois são exigências ideais que nunca se verificaram na prática:
Se a doutrina espírita fosse uma concepção puramente humana, não teria como garantia senão as luzes daquele que a tivesse concebido. Ora, ninguém neste mundo poderia ter a pretensão de possuir, sozinho, a verdade absoluta. Se os Espíritos que a revelaram se houvessem manifestado a apenas um homem, nada lhe garantiria a origem, pois seria necessário crer sob palavra no que dissesse haver recebido os seus ensinos. Admitindo-se absoluta sinceridade de sua parte, poderia no máximo convencer as pessoas do seu meio, e poderia fazer sectários, mas não chegaria nunca a reunir a todos.
Deus quis que a nova revelação chegasse aos homens por meio mais rápido e mais autêntico. Eis porque encarregou os Espíritos de a levarem de um pólo ao outro, manifestando-se por toda parte, sem dar a ninguém o privilégio exclusivo de ouvir a sua palavra. Um homem pode ser enganado e pode enganar-se a si mesmo, mas não aconteceria assim, quando milhões vêem e ouvem a mesma coisa: isto é uma garantia para cada um e para todos...
São realmente os próprios Espíritos que fazem a propaganda, com a ajuda de inumeráveis médiuns, que eles despertam por toda parte. Se houvesse um intérprete único, por mais favorecido que esse fosse, o Espiritismo estaria apenas conhecido. Esse intérprete, por sua vez, qualquer que fosse a sua categoria, provocaria a prevenção de muitos; não seria aceito por todas as nações. Os Espíritos, entretanto, comunicando-se por toda parte, a todos os povos, a todas as seitas e a todos os partidos, são aceitos por todos…
Esta universalidade do ensino dos Espíritos faz a força do Espiritismo, e é ao mesmo tempo a causa de sua tão rápida propagação. Enquanto a voz de um só homem, mesmo com o auxílio da imprensa, necessitaria de séculos para chegar aos ouvidos de todos, eis que milhares de vozes se fazem ouvir simultaneamente, em todos os pontos da Terra, para proclamar os mesmos princípios e os transmitir aos mais ignorantes e aos mais sábios, a fim de que ninguém seja deserdado. É uma vantagem de que não pôde gozar nenhuma das doutrinas aparecidas até hoje. Se, portanto, o Espiritismo é uma verdade, ele não teme nem a má vontade dos homens, nem as revoluções morais, nem as transformações físicas do globo, porque nenhuma dessas coisas pode atingir os Espíritos.
Mas não é esta a única vantagem que resulta dessa posição excepcional. O Espiritismo ainda encontra nela uma poderosa garantia contra os cismas que poderiam ser suscitados, quer pela ambição de alguns, quer pelas contradições de certos Espíritos. Essas contradições são certamente um escolho, mas carregam em si mesmas o remédio ao lado do mal…
A concordância no ensino dos Espíritos é portanto o seu melhor controle, mas é ainda necessário que ela se verifique em certas condições. A menos segura de todas é quando um médium interroga por si mesmo numerosos Espíritos sobre uma questão duvidosa. É claro que, se ele está sob o império de uma obsessão, ou se tem relações com um Espírito embusteiro, este Espírito pode dizer-lhe a mesma coisa sob nomes diferentes. Não há garantia suficiente, da mesma maneira, na concordância que se possa obter pelos médiuns de um mesmo centro, porque eles podem sofrer a mesma influência.
A única garantia segura do ensino dos Espíritos está na concordância das revelações feitas espontaneamente, através de um grande número de médiuns, estranhos uns aos outros, e em diversos lugares…
Ora, já verificamos que a “doutrina espírita”, ou Espiritismo, não representa a “concordância das revelações feitas espontaneamente” através de médiuns “estranhos uns aos outros, e em diversos lugares”. Não foi “revelada” a todo o movimento espiritualista, e tampouco o que teria sido revelado e “codificado” por Allan Kardec foi corroborado pelos rumos posteriores das “revelações” feitas no meio espírita brasileiro, como foi demonstrado no caso de Chico Xavier, Hercílio Maes, os Gasparetto ou Waldo Vieira.
Isso no que se refere aos postulados doutrinários do Espiritismo. Mais essencial é o que ele partilha com o Espiritualismo em geral e que, uma vez descartado, derruba toda a doutrina espírita junto: a crença de que a origem dos fenômenos ditos mediúnicos sejam os espíritos dos mortos. Fazendo vistas grossas à hipótese de fraude, o que se verifica de fato, nas supostas comunicações, é que elas não ocorrem como seria de se esperar caso a explicação espiritualista fosse correta. Se fosse esse o caso, os espíritos estariam produzindo provas incontestáveis de sua identidade, como, por exemplo, enviando a mesma mensagem para diferentes médiuns, ou dividindo uma mensagem em várias partes e comunicando cada uma delas a um médium que não conhecesse seus congêneres envolvidos, informando-lhes onde estaria a parte anterior e posterior, com todas elas se encaixando. E fazendo isso em profusão.
Absolutamente nada disso foi jamais possível. O que se verifica invariavelmente é que mensagens atribuídas aos espíritos e carregadas de detalhes propiciando sua identificação, como as que eram produzidas por Chico Xavier, são raríssimas se considerarmos todo o contingente de “médiuns” disponíveis – daí, aliás, a fama do mineiro como primus inter pares -, e, quando ocorrem, advém de um único médium.
Esse fato – frisando que estou descartando aprioristicamente a possibilidade de fraude, a despeito do que disse Waldo Vieira na parte anterior – só condiz com uma explicação: a de que é esse indivíduo que tem uma capacidade extraordinária de receber informações desconhecidas de diferentes fontes por meios “paranormais” (como “telepatia”, “clarividência” ou “remote viewing”, etc.), e não que os espíritos dos mortos têm a capacidade natural de oferecer informações a ditos “médiuns”.
Fazendo uma comparação: os televisores, não importando se analógicos ou digitais, com tela convencional, de LCD ou plasma, captam necessariamente as mesmas informações das antenas retransmissoras de VHF e UHF, apesar da qualidade da recepção e exibição variarem.
Quem mora em prédio já deve ter passado pela experiência de descer ou subir vários lances de escada e, enquanto se movimenta, ouvir o som de um mesmo programa vazando dos apartamentos e, com isso, conseguir acompanhá-lo conforme muda de andar. Percebemos que é o mesmo filme, novela ou telejornal sendo captado nas várias residências. É isso que permite que haja pessoas, todos os dias, comentando as mesmas cenas que assistiram em lugares diferentes.
Quando se vai a uma lan house a coisa é bem diferente. Conforme nos deslocamos, podemos perceber, na tela do computador de cada usuário, imagens diferindo completamente umas das outras, e muitas vezes várias imagens simultâneas sobrepostas parcialmente, cada uma delas relacionada a um programa, aplicativo ou aba com informações diferentes abertas em um mesmo computador.
O que os aparelhos de televisão evidenciam é que há uma só fonte para as imagens e sons de cada canal, que, como sabemos, no caso do sinal aberto, são as antenas retransmissoras. Seus sinais são compartilhados, de forma praticamente sincrônica, ao longo de toda a região de cobertura. Os televisores funcionam como “médiuns”, meios de recepção e reprodução dessas informações.
Os computadores, por sua vez, podem ser utilizados para VOIP ou live streaming, mas o que evidenciam é sua capacidade de processamento local de informações advindas de diferentes fontes geralmente assíncronas (internet, pendrives, câmeras, etc.).
No caso da TV, o ponto fulcral é a antena retransmissora, que lhe é externa. No do computador, o disco rígido que carrega internamente. Pode-se assistir a um vídeo no computador e com isso emular a aparência e a função de um televisor, mas isso não permite confundir a forma de funcionamento de cada um deles. Um computador, mesmo que funcionando em rede, é uma unidade autônoma quando comparado ao aparelho de TV.
A hipótese mediúnica dos espíritas e espiritualistas em geral exige médiuns operando de forma semelhante à da televisão. Ninguém duvidaria deles se, morando em diferentes andares de um único prédio, mas sem comunicação entre si, reproduzissem, mesmo que com menor precisão, a experiência de vários moradores sintonizando o mesmo canal de TV.
Mesmo nos poucos casos que me foram narrados em que algo semelhante parecia ocorrer, havia sempre a exposição a pelo menos uma mesma pessoa em comum (como alguém que vai procurar diferentes médiuns, e esses relatam detalhes semelhantes sobre alguma coisa), o que não cumpre nem mesmo as exigências de Kardec citadas acima. O que não ocorre, e nem jamais ocorreu, são médiuns que não se conhecem e não têm nenhuma forma de comunicação entre si captarem, como sugeri no início desta terceira parte, a mesma mensagem ou partes de um mesmo texto que se completam. Se a hipótese mediúnica fosse correta, isso teria de ocorrer com a mais convincente freqüência.
Para piorar ainda mais a situação dos espíritas, eles admitem a existência do “animismo”, termo que utilizam para se referir à capacidade do indivíduo vivo produzir fenômenos “paranormais” sem a contribuição dos espíritos dos mortos (como no caso da telepatia, precognição, experiências-fora-do-corpo, etc.).
É o que se lê em “O Livro dos Médiuns”, de Allan Kardec, cap. XIX, “Papel do Médium nas Comunicações” :
2. As comunicações escritas ou verbais podem ser também do próprio Espírito do médium?
— A alma do médium pode comunicar-se como qualquer outra. Se ela goza de um certo grau de liberdade, recobra então as suas qualidades de Espírito. Tens a prova na visita das almas de pessoas vivas que se comunicam contigo, muitas vezes sem serem chamadas. Porque é bom saberes que entre os Espíritos que evocas há os que estão encarnados na Terra. Nesses casos eles te falam como Espíritos e não como homens. Por que o médium não poderia fazer o mesmo?…
E a nota do tradutor (o já citado Herculano Pires):
Esse erro de exclusivismo é o mesmo que hoje praticam os parapsicólogos antiespíritas, que pensam haver descoberto a pólvora ao afirmar: “Não há Espíritos, pois tudo vem da mente do médium!” O Espiritismo, como se vê, conhece desde o seu início os dois fenômenos: o anímico, de manifestação da alma do médium, e o espírita, de manifestação de um Espírito desencarnado. Jamais o Espiritismo cometeu o erro do exclusivismo oposto, ou seja, de afirmar que as comunicações são apenas de Espíritos desencarnados. Veja-se a Revista Espírita, o livro de Aksakoff Animismo e Espiritismo e os livros de Ernesto Bozzano Animismo ou Espiritismo e Comunicações Mediúnicas Entre Vivos. (N. do T.)
De “O Livro dos Espíritos”, cap. VIII, “Emancipação da Alma”:
420. Os Espíritos podem comunicar-se, se o corpo estiver completamente acordado?
— O Espírito não está encerrado no corpo como numa caixa: ele irradia em todo o seu redor; eis porque pode comunicar-se com outros Espíritos, mesmo no estado de vigília, embora o faça mais dificilmente.
421. Por que duas pessoas, perfeitamente despertas, têm, muitas vezes, instantaneamente, o mesmo pensamento?
— São dois Espíritos simpáticos que se comunicam e vêem reciprocamente os seus pensamentos, mesmo quando não dormem.
Há entre os Espíritos que se afinam uma comunicação de pensamentos que faz que duas pessoas se vejam e se compreendam sem a necessidade dos signos exteriores da linguagem. Poderia dizer-se que elas falam a linguagem dos Espíritos.
E mais: os espíritas incluem comumente, sob a designação de animismo, a influência inconsciente do dito “médium” nas mensagens dos supostos “espíritos”.No capítulo IV do Livro dos Médiuns, “Sistemas“, Kardec levanta explicações alternativas à espiritualista, e, em uma delas, admite a influência do “médium”:
45. SISTEMA SONAMBÚLICO: este sistema teve mais partidários, mas ainda agora conta com alguns. Como precedente, admite que todas as comunicações inteligentes procedem da alma ou Espírito do médium… Não se pode negar, em certos casos, a influência dessa causa…
Do trecho acima excluí os argumentos que Kardec usa para descartar essa explicação para todas as comunicações “mediúnicas”. Reproduzo-os agora:
…Não se pode negar, em certos casos, a influência dessa causa, mas é suficiente haver presenciado como opera a maioria dos médiuns para compreender que ela não pode resolver todos os casos, constituindo pois a exceção e não a regra. Poderia ser assim, se o médium tivesse sempre o ar de inspirado ou extático, aparência que ele poderia, aliás, simular perfeitamente, se quisesse representar uma comédia. Mas como crer na inspiração, quando o médium escreve como uma máquina, sem a menor consciência do que obtém, sem a menor emoção, sem se preocupar com o que faz, inteiramente distraído, rindo e tratando de assuntos diversos?
A esses argumentos adiciono outros, que Kardec apresentou na consideração de uma outra explicação alternativa:
… Pensou-se que poderia ser a do médium ou dos assistentes, que se refletiria como a luz ou as ondas sonoras…
… Somente a experiência, dissemos, poderia dar a última palavra sobre essa teoria, e a experiência a deu condenando-a, porque ela demonstra a cada instante, e pelos fatos mais positivos, que o pensamento manifestado pode ser, não só estranho aos assistentes, mas quase sempre inteiramente contrário ao deles; que contradiz todas as idéias preconcebidas e desfaz todas as previsões. De fato, quando eu penso branco e me respondem preto, não posso acreditar que a resposta seja minha…
Como, aliás, explicar pelo reflexo do pensamento a escrita feita por pessoas que não sabem escrever? As respostas do mais elevado alcance filosófico obtidas através de pessoas iletradas. E aquelas dadas a perguntas mentais ou formuladas numa língua desconhecida do médium? E mil outros fatos que não podem deixar dúvida quanto à independência da inteligência manifestante? … Além disso, a espontaneidade do pensamento manifestado independente de toda expectativa e de qualquer questão formulada, não permite que se possa tomá-lo como um reflexo do que pensam os assistentes.
O sistema do reflexo é muito desagradável em certos casos. Quando, por exemplo, numa reunião de pessoas sérias ocorre uma comunicação de revoltante grosseria, atribuí-Ia a um dos assistentes seria cometer uma grave indelicadeza, e é provável que todos se apressassem em repudiá-Ia. (Ver O Livro dos Espíritos, parágrafo XVI da Introdução.)
Ora, Allan Kardec, bastava que o Sr. prestasse atenção ao que está escrito em outro de seus livros. No capítulo VIII de O Livro dos Espiritos, “Emancipação da Alma”, o “Espirito da Verdade” teria respondido:
O sonho é a lembrança do que o vosso Espírito viu durante o sono; mas observai que nem sempre sonhais, porque nem sempre vos lembrais daquilo que vistes ou de tudo o que vistes… freqüentemente não vos resta mais do que a lembrança da perturbação que acompanha a vossa partida e a vossa volta, a que se junta a lembrança do que fizeste ou do que vos preocupa no estado de vigília. Sem isto, como explicaríeis esses sonhos absurdos, a que estão sujeitos tanto os mais sábios quanto os mais simples?
… Os sonhos são o produto da emancipação da alma, que se torna mais independente pela suspensão da vida ativa e de relação. Daí uma espécie de clarividência indefinida, que se estende aos lugares os mais distantes ou que jamais se viu, e algumas vezes mesmo a outros mundos. Daí também a lembrança que retraça na memória os acontecimentos verificados na existência presente ou nas existências anteriores. A extravagância das imagens referentes ao que se passa ou se passou em mundos desconhecidos, entremeadas de coisas do mundo atual, formam esses conjuntos bizarros e confusos que parecem não ter senso nem nexo.
… 405. Freqüentemente se vêem em sonhos coisas que parecem pressentimentos e que não se cumprem; de onde vêm elas?
— Podem cumprir-se para o Espírito, se não se cumprem para o corpo. Quer dizer que o Espírito vê aquilo que deseja, porque vai procurá-lo. Não se deve esquecer que, durante o sono, a alma está sempre mais ou menos sob a influência da matéria e por conseguinte não se afasta jamais completamente das idéias terrenas. Disso resulta que as preocupações da vigília podem dar, àquilo que se vê, a aparência do que se deseja ou do que se teme. A isso é que realmente se pode chamar um efeito da imaginação. Quando se está fortemente preocupado com uma idéia liga-se a ela tudo o que se vê…
Temos então a admissão, nas mais importantes fontes espíritas, de que há influências “paranormais” entre vivos (como a telepatia), e também que a mente humana pode criar um sonho que apresente conteúdo de fontes “anímicas” (como a “clarividência indefinida”), preocupações e a memória de eventos que ocorreram na vigília. Isso tudo ocorrendo no suposto “médium”, que funciona aí como o ponto central dessas informações todas, a exemplo do computador, e recriando-as no que “realmente pode-se chamar um efeito da imaginação”.
Isso é o bastante para responder às objeções apresentadas por Allan Kardec – que reproduzi acima – às explicações alternativas à “mediúnica”. Se todos os fatos que ele apresenta para contrariá-las preenchessem as condições que se esperaria de um fenômeno genuinamente mediúnico – repetindo: a proliferação de mensagens com detalhes da vida dos mortos através de médiuns diferentes que não se conhecessem e nem tivessem tido qualquer forma de comunicação entre si, ou o recebimento de trechos de mensagens através de diferentes médiuns, e que esses trechos se encaixassem formando um só texto com unidade interna -, ele estaria certo. Mas não é isso que ocorre. Os fenômenos que ele elencou são sempre compatíveis com o modus operandi de um computador, não do aparelho de televisão, e nada compatíveis com o que foi dito por Kardec e que reproduzi no início desta parte:
Deus quis que a nova revelação chegasse aos homens por meio mais rápido e mais autêntico. Eis porque encarregou os Espíritos de a levarem de um pólo ao outro, manifestando-se por toda parte, sem dar a ninguém o privilégio exclusivo de ouvir a sua palavra. Um homem pode ser enganado e pode enganar-se a si mesmo, mas não aconteceria assim, quando milhões vêem e ouvem a mesma coisa: isto é uma garantia para cada um e para todos…
São realmente os próprios Espíritos que fazem a propaganda, com a ajuda de inumeráveis médiuns, que eles despertam por toda parte…Os Espíritos, entretanto, comunicando-se por toda parte, a todos os povos, a todas as seitas e a todos os partidos, são aceitos por todos…
… eis que milhares de vozes se fazem ouvir simultaneamente, em todos os pontos da Terra, para proclamar os mesmos princípios e os transmitir aos mais ignorantes e aos mais sábios, a fim de que ninguém seja deserdado…
“To add insult to injury”, como se diria em inglês, Kardec tentou descartar a explicação de que as mensagens seriam fruto de uma “alma coletiva” das pessoas presentes à sessão. Do cap. IV de “O Livro dos Méduns”:
44. SISTEMA DA ALMA COLETIVA: é uma variante do precedente. Segundo este sistema, somente a alma do médium se manifesta, mas identificando-se com a de muitas outras pessoas presentes ou ausentes, para formar um todo coletivo que reuniria as aptidões, a inteligência e os conhecimentos de cada uma delas. Embora a brochura que expõe essa teoria se intitule A Luz(5) pareceu-nos de um estilo bastante obscuro. Confessamos haver compreendido pouco do que vimos e só a citamos para registrá-Ia. Trata-se, aliás, de uma opinião individual como tantas outras e que fez poucos adeptos…
Contraponho Allan Kardec a Stephen Wagner, em seu artigo intitulado “How to create a ghost” (Como criar um fantasma), do qual traduzo alguns trechos abaixo:
Muitos pesquisadores do paranormal suspeitam que algumas das manifestações fantasmagóricas e fenômenos de poltergeist… sejam produtos da mente humana. Para testar essa idéia, um experimento fascinante foi conduzido no início da década de 70 pela Toronto Society for Psychical Research (TSPR) para ver se eles conseguiriam criar um fantasma. A idéia era reunir um grupo de pessoas que comporia uma personagem completamente ficcional e, então, durante sessões mediúnicas, verificariam se era possível contatá-la e receber mensagens e outros fenômenos físicos – talvez até mesmo uma aparição.
Os resultados do experimento – que foram totalmente documentados em filme e fita de áudio – são surpreendentes.
A TSPR, sob a supervisão do Dr. A.R.G. Owen, reuniu um grupo de oito pessoas de entre os associados, nenhum deles alegando ter quaisquer dons paranormais… [T]ornou-se conhecido como o Grupo de Owen…
A primeira tarefa do grupo foi criar sua personagem histórica ficcional. Juntos, escreveram uma curta biografia da pessoa, que denominaram Philip Ayesford…
Stephen Wagner passa então a descrever os detalhes biográficos que criaram, que incluíam incidentes muito específicos. Não foi uma descrição genérica.
Com a vida e aparência de sua obra então firmemente estabelecidas em sua mente, o grupo começou a segunda fase do experimento: o contato.
Em setembro de 1972, as “sessões” foram iniciadas, e nada conseguiram durante um ano, exceto alguns membros relatarem a sensação de uma presença na sala. Decidiram então reproduzir o ambiente clássico de uma sessão mediúnica, com luzes fracas, participantes em torno de uma mesa, etc.
Isso funcionou. Durante uma das sessões noturnas, o grupo recebeu a primeira comunicação de Philip na forma de uma inconfundível batida (rap) na mesa. Em breve Philip estava respondendo perguntas feitas pelo grupo – uma batida para sim, duas para não. Eles sabiam que era Philip porque, bem, perguntaram a ele.
As sessões então deslancharam, produzindo uma profusão de fenômenos que não poderiam ser explicados cientificamente. Através da comunicação por batidas na mesa, o grupo conseguiu detalhes mais precisos da vida de Philip. Ele até parecia exibir uma personalidade, expressando suas preferências e sua convicta opinião sobre diversos assuntos… O “espírito” também conseguia mover a mesa, deslizando-a de um lado para o outro apesar de o chão estar revestido por um grosso tapete. Às vezes ela até “dançava” sobre uma só perna.
Que Philip era uma criação da imaginação coletiva do grupo era evidenciado por suas limitações. Embora pudesse responder perguntas sobre eventos e pessoas de sua época com precisão, não parecia possuir informações desconhecidas pelo grupo… Alguns membros pensavam ouvir sussurros em resposta às perguntas, mas nenhuma voz jamais foi capturada em fita.
Percebam que essa limitação das informações àquelas conhecidas pelo grupo se explica pelo fato de que nenhum dos participantes era “médium”. Se levarmos em consideração que um médium pode ser, de fato, um paranormal com a capacidade “anímica” de buscar informações de outras fontes – o que nem mesmo Allan Kardec nega – além da possibilidade de fraude, como descrita por Waldo Vieira, aliada ou não a uma paranormalidade genuína, mas que estou descartando agora -, a referência a fatos desconhecidos até mesmo por esse “médium”, ao contrário do que concluiu Kardec, é só uma variação do experimento descrito e que, nem por isso, deixou de apresentar fenômenos paranormais, como a levitação da mesa.
Wagner continua descrevendo outros fenômenos físicos que ocorreram, mas diz que a desejada materialização de Philip jamais foi conseguida (talvez porque não ocorreram no consultório de Waldo Vieira). E cita a replicação do experimento, algo que tenho exigido das mensagens dos “espíritos” e que não existe até hoje:
O experimento de Philip foi tão bem sucedido que a instituição de Toronto decidiu tentá-lo novamente com um grupo totalmente diferente e uma nova personagem ficcional. Depois de apenas 5 semanas, o novo grupo estabeleceu “contato” com seu novo “fantasma”, Lilith, uma espião franco-canadense. Outros experimentos similares convocaram entidades como Sebastian, um alquimista medieval , e até mesmo Axel, um homem do futuro. Todos completamente ficcionais, embora tendo produzido comunicações inexplicáveis por meio de suas inconfundíveis batidas.
Recentemente, um grupo de Sidnei, Austrália, tentou um teste semelhante com o “Experimento Skippy”.Os seis participantes criaram a história de Skippy Cartman, uma garota australiana de 14 anos. O grupo relata que Skippy se comunicou com eles através de batidas e arranhos.
Debate: William Lane Craig X Bart Ehrman – evidências históricas da ressureição de Jesus novembro 25, 2009
Posted by Gustavo Reichenbach in : Debates religiosos , add a commentQuestão para o Dr. Ehrman: Minha questão é para o Dr. Ehrman. Muito obrigado
pela sua apresentação. Um dos comentários feitos por você é que
historiadores não podem pressupor a crença em Deus. Eu sou um historiador e,
na verdade, eu estou fazendo minha dissertação de Ph.D. atualmente sobre
historiografia, e eu concordo com você que não se pode pressupor a crença em
Deus. Mas você não pode também pressupor a crença no passado, o período, ou
que nós podemos até mesmo conhecê-lo parcialmente. Nós temos de ser capazes
de respaldar esta crença. Assim, os historiadores não podem ter nenhuma
pressuposição; eles devem ser capazes de respaldar quaisquer crenças
metafísicas que eles vão jogar sobre a mesa. Assim, se você vai acreditar em
Deus, como o Dr. Craig, você tem que justificar isto. Mas eu não acho que o
mesmo esteja fora do escopo do estudo histórico, uma vez que historiadores
têm de percorrer outras disciplinas freqüentemente. Eu gostaria de saber
como você lida com isto.
Resposta do Dr. Ehrman: Bem, obrigado pela questão! Eu não acredito que
História seja uma disciplina objetiva para começarmos. Soa de sua questão
que você concorda com o ponto que foi levantado, mas nós precisamos
conversar mais sobre seu uso da teoria pós-moderna. A minha visão é que os
historiadores não devem respaldar nenhuma pressuposição que ele ou ela
tenha. Mas meu ponto é que para um historiador fazer seu trabalho, deve
existir certos pressupostos compartilhados em comum, mas estes pressupostos
devem poder ser observados. Deus não pode ser observado. Assim nós podemos
muito bem discordar sobre eventos históricos importantes. Existem pessoas em
nosso mundo que, por exemplo, negam o holocausto, que dizem que o holocausto
nunca aconteceu. Bem, como alguém pode demonstrar que o holocausto
aconteceu? Bem, este alguém reúne relatos de testemunhas oculares,
fotografias e vídeos e ainda adiciona as citações de historiadores que
concordam que o material colhido é válido, e então este alguém tenta
elaborar seu caso. Mas as informações recolhidas devem ser de tal forma que
historiadores de todos os tipos concordam que elas sejam válidas, o mesmo em
relação às testemunhas oculares. E apelar para o sobrenatural não é
aceitável na comunidade histórica como sendo um critério válido para se
avaliar um evento passado. A razão disto, em parte, é porque alguém pode vir
com qualquer explicação teológica alternativa para o caso. Vejo que passei
do meu tempo, mas eu ia lhes dar uma explicação teológica alternativa à
hipótese da ressurreição, mas farei isto depois.
Resposta do Dr. Craig: A visão do Dr. Ehrman parece ser que, para fazermos
história, devemos pressupor um tipo de ateísmo metodológico. E a mim isto
parece não apenas falso, mas, como eu já disse, literalmente
autocontraditório. Porque se é verdade que o historiador não pode fazer
nenhum julgamento sobre Deus, então ele não pode fazer o julgamento de que é
improvável que Deus tenha ressuscitado Jesus de dentre os mortos. E, sendo
assim, ele não pode fazer nenhuma avaliação probabilística sobre a
ressurreição baseado no corpo de informações que temos. Este valor
probabilístico seria inescrutável. E se é inescrutável, então ele não pode
fazer julgamentos sobre as fantasiosas explicações naturalistas alternativas
que ele nos deu. Assim me parece que o historiador deve estar aberto, pelo
menos metodológica-mente. Ele não pode ser um ateísta metodológico. E em
todo caso, digo novamente, este não é um debate sobre o que os historiadores
podem fazer. Eu, como filósofo, penso poder inferir esta conclusão com base
na evidência histórica, e não há nada ilegítimo ou ilícito ao se fazer isto.
Questão para o Dr. Craig: Dr. Craig, nós temos [má recepção do microfone],
que são: você acredita que existem alguns problemas, enganos ou erros nos
documentos do Novo Testamento? E segunda, ele está sugerindo que, como você
disse que é uma fonte confiável por não possui adulterações, Mateus não
seria assim uma fonte confiável por ter sido adulterada. Então você precisa
responder a isto.
Resposta do Dr. Craig: OK, Dr. Ehrman está tentando pregar uma pequena
trapaça de debatedor aqui em mim, na qual eu simplesmente me recuso a
participar. O critério desta questão é: se um relato é simples, não contém
adulterações teológicas, etc. então ele possui mais probabilidade e
credibilidade de ser histórico. E eu penso que isto é verdadeiro. Mas este
debate não é sobre a inerrância bíblica. Então minha atitude sobre a questão
de existir ou não erros ou enganos na Bíblia é irrelevante. Esta seria uma
convicção teológica. Historicamente, eu estou usando os mesmos critérios que
ele usa, e eu estou completamente aberto à sua demonstração de que existem
erros e enganos nas narrativas. Esta não é a questão do debate nesta noite.
A inerrância da Bíblia é uma grande questão na fé pessoal do Dr. Ehrman que
o levou a abandonar sua fé cristã. Mas eu não estou pressupondo nenhum tipo
de doutrina teológica sobre a inerrância bíblica ou de sua inspiração – nem
estão todos os estudiosos que pensam que estes quatro fatos são
estabelecidos por critérios de autencidade que ele mesmo defende. Então
minha atitude teológica acerca de eu pensar que existem ou não erros na
Bíblia é irrelevante nesta noite. A questão é, o que você pode provar
positivamente usando os critérios padrões? E meu argumento é que quando você
usa estes critérios, você pode provar positivamente estes quatro fatos
básicos subseqüentes à crucificação de Jesus.
Resposta do Dr. Ehrman: Então aparentemente tudo bem em se ter pressupostos
teológicos sobre a ressurreição, mas não está OK ter pressupostos teológicos
sobre as fontes históricas sobre as quais a crença na ressurreição está
baseada. Se a crença na ressurreição é baseada em certas fontes que estão na
Bíblia e se estas fontes, em sua própria natureza, devem ser inerrantes,
então naturalmente você concluiria que a ressurreição aconteceu. Mas Bill se
recusa a nos dizer se ele acha que a Bíblia contém erros ou não. Ele não nos
dirá isso porque ele ensina em uma instituição na qual o colegiado concorda
que a Bíblia é inerrante sem nenhum tipo de erro em suas palavras. Então ele
não pode acreditar que existam quaisquer erros na Bíblia. Se ele acha que a
Bíblia contém erros, então eu gostaria que eles nos falasse dois ou três
deles. Se ele não acha que a Bíblia contém erros, eu gostaria de saber com
ele pode dizer que está usando os evangelhos do Novo Testamento como fontes
históricas. Ele não pode avaliar criticamente estas fontes, e uma coisa que
os historiadores devem fazer é ser capazes de avaliar criticamente as fontes
sobre as quais suas afirmações estão baseadas.
Questão para Dr. Ehrman: Obrigado Dr. Ehrman, Você acha que a Teologia é de
algum modo uma fonte válida de conhecimento ou você acredita no naturalismo
filosófico? [Má recepção do microfone]
Resposta do Dr. Ehrman: Eu acho que os métodos teológicos de conhecimento
são perfeitamente aceitáveis e legítimos com métodos teológicos de
conhecimento. Mas eu acho que as afirmações teológicas devem ser avaliadas
em bases teológicas. Por exemplo, a idéia que estes quatro fatos que Bill
continua a se referir mostram que Deus ressuscitou Jesus de dentre os
mortos. Você pode surgir com uma visão teológica diferente desta proposta
por Bill. Suponha, por exemplo, para explicar estes quatro fatos, que o deus
Zulu enviou Jesus para 12ª dimensão, e nesta 12ª dimensão ele era permitido
retornar periodicamente à Terra para um breve descanso de seus sofrimentos
eternos. Mas ele não pode falar aos seus discípulos sobre isto porque Zulu o
disse que, se o fizesse, ele iria acrescentar mais dor à suas agonias
eternas. Então, esta é outra explicação teológica para o que aconteceu. Ela
explicaria a tumba vazia e explicaria as aparências de Jesus. Ela não é tão
provável quanto deus ter ressuscitado Jesus dos mortos e tê-lo feito sentar
ao seu lado direito; que o Deus de Abraão, Isaque e Jacó interferiu na
história e exaltou seu nome ao ressuscitar seu Messias? Bem, você pode
pensar que não, que na verdade a primeira explicação do deus Zulu é louca.
Bem, sim, OK, é louca; mas é teologicamente louca. Não é historicamente
louca. Ela não é menos provável como explicação para o que aconteceu do que
a explicação de que o Deus de Abraão, Isaque e Jacó ressuscitou Jesus dos
mortos porque ambas as explicações são teológicas; elas não são explicações
históricas. Então, na esfera da Teologia, eu certamente penso que a Teologia
é um método legítimo de pensamento. Mas os critérios para avaliação
teológica são teológicos; eles não são históricos.
Resposta do Dr. Craig: Hipóteses teológicas como esta certamente podem ser
avaliadas pelos critérios que eu usei para avaliar a ressurreição de Jesus.
Em particular, uma hipótese como a que foi sugerida, eu penso, possui um ad
hoc gigantesco e altamente implausível, considerando que o contexto
religioso-histórico no qual a ressurreição de Jesus supostamente ocorreu, eu
acho extremamente plausível pensar que na exaltação do Deus de Israel à
afirmação radical de Jesus de Nazaré como sendo o Filho de Deus e a
revelação de Deus à humanidade. Quando você observa o contexto, eu acho que
ele provê a chave ou uma pista para a interpretação adequada do milagre.
Então eu acho que devemos avaliar as reivindicações teológicas
filosoficamente e também de acordo com os mesmos critérios que eu propus que
usássemos ao avaliar as explicações para os quatro fatos.
Questão para o Dr. Craig: Estou muito interessado no cálculo de
probabilidade que você mostrou. Para dizer que foi provável que Jesus
ressuscitou você precisa colocar números naquela equação e chegar a uma
resposta maior do que 0,5. Eu estou interessado em qual é o resultado deste
cálculo e qual é a margem de erro dele. E como estes números foram
determinados?
Reposta do Dr. Craig: Obrigado pela questão! Richard Swinburne, que é um
estudioso na Universidade de Oxford, escreveu um livro sobre a encarnação e
a ressurreição no qual ele faz uso do cálculo de probabilidade que eu
demonstrei. Sua estimativa é de que a probabilidade da ressurreição de Jesus
é de 0,97, e você pode ler neste livro a razão deste resultado. Eu
particularmente não uso o cálculo da probabilidade para argumentar sobre a
ressurreição de Jesus. A razão de eu o trazer aqui foi para prover uma
resposta para os argumentos do Dr. Ehrman ofereceria com base no argumento
de Hume contra a verificação de milagres, que eu penso ser completamente
errado porque ele tenta dizer que a ressurreição é improvável simplesmente
por causa da improbabilidade da ressurreição sobre o corpo de informações
que temos à parte das evidências para a ressurreição de Jesus, apenas. Na
verdade, eu penso que esta probabilidade é inescrutável, uma vez que estamos
lhe dando com um agente livre. Eu não vejo como nós podemos inferir ou
assegurar um número específico para as variáveis do cálculo. Então a maneira
na qual eu argumento sobre a ressurreição não é usando o cálculo de
probabilidades. E sim usando aquilo que chamamos de “inferência à melhor
explicação”, que é a maneira pela qual os historiadores normalmente
trabalham. Isto quer dizer, você avalia hipóteses históricas concorrentes
sob os mesmos critérios como: poder explanatório, escopo explicativo,
plausibilidade, menor quantidade de ad hoc, concordância com as crenças já
aceitas, etc. E eu estou preparado para argumentar que quando você coloca a
hipótese da ressurreição ao lado das alternativas naturalistas, você verá
que a hipótese da ressurreição vence com sobras suas teorias rivais
naturalistas – a não ser que você pressuponha algum tipo de ateísmo
metodológico para travar a hipótese da ressurreição. Eu acho que é
exatamente isto o que o Dr. Ehrman faz. Da mesma que eu acredito em Deus e,
portanto, acho que a existência de Deus é bem plausível, como alguém que não
acredita, ele acha que a possibilidade da ressurreição é absurdamente
improvável. Mas ele não nos deu nenhuma boa razão para pensarmos que a
existência de Deus é improvável ou que é improvável que Deus ressuscitou
Jesus de dentre os mortos. Na verdade, ele não pode fornecer uma avaliação
de probabilidade, uma vez que ele mesmo comentou sobre os limites de um
historiador.
Resposta do Dr. Ehman: Desculpe. Eu não acredito que estamos tendo uma
conversa séria sobre a probabilidade estatística da ressurreição ou a
probabilidade estatística da existência de Deus. Eu acho que em qualquer
universidade do país, se nós estivéssemos perante um grupo de acadêmicos,
nós seríamos expulsos do palco…
Dr. Craig: Isto não é verdade.
Dr. Ehrman: Bem, talvez não seja verdade na escola onde você ensina, mas na
instituição de pesquisa onde eu ensino…
Dr. Craig: Bem, o que você me diz sobre a Universidade de Oxford, onde o
Professor Swinburne ensina?
Dr. Ehrman: Bem, Swinburne mostrou que a probabilidade é de 0,97. E quantas
pessoas se convenceram disto exatamente? Estes argumentos são aqueles que só
convencem quem quer ser convencido. Eles não são argumentos sérios para ser
considerados pelas pessoas, então eles podem dizer, “Ah sim, agora eu vou
acreditar porque existe uma probabilidade de 0,97″. Isto não faz sentido;
você não pode demonstrar a existência do sobrenatural por cálculos
estatísticos.
Questão para o Dr. Ehrman: O que eu quero perguntar é, os relatos de
ocorrências de milagres através do tempo tornam a probabilidade maior que os
historiadores pensam?
Reposta do Dr. Ehrman: Boa pergunta. A questão é: o relato da ocorrência de
milagres através do tempo aumenta a probabilidade? Eu diria que a resposta é
provavelmente “não” porque em todas as instâncias você precisa avaliar se o
evento é provável ou não e um milagre nunca seria um evento provável. Então,
se alguém pensa que sim, que um milagre é um evento provável, o que eu
gostaria que Bill fizesse é nos dizer por que ele não acha que Maomé
realizou milagres uma vez que certamente temos relatos disto. Por que ele
não acha que Apolônio de Tiana realizou milagres? Ele citou Larry Yarbrough,
que, na verdade, provavelmente nunca leu sobre a vida de Apolônio. Eu sei
disso porque eu tive uma conversa com Larry Yarbrough sobre isto. Ele nunca
leu os textos. Eu não sei se Bill leu os textos. Eles são muito
interessantes; são textos gregos e estão amplamente disponíveis. Eles nos
dizem que Apolônio de Tiana realizou muitos milagres semelhantes aos que
Jesus realizou; ele podia expulsar demônios, curar doenças, ressuscitar os
mortos, e no final de sua vida ele subiu aos céus. E Apolônio de Tiana foi
apenas um dentre uma centena de pessoas do mundo antigo sobre as quais estes
fatos foram atribuídos. Então, se permitirmos a possibilidade de Jesus, o
que faremos quanto à possibilidade de Apolônio? Ou Honi, o desenhista de
círculos, ou Hanina ben Dosa ou o imperador Vespasiano? Você pode
acrescentar quantos nomes você quiser. Agora, a razão de nós não sabermos
muito sobre estas pessoas é porque, claro, o único milagreiro Filho de Deus
que conhecemos é Jesus. Mas, na verdade, no mundo antigo existiam centenas
de pessoas como Jesus, com centenas de histórias contadas sobre eles. Nós
não os contamos porque eles não estão em nossa tradição. Esta é a razão do
porque minha explicação alternativa de Zulu soou implausível a Bill: em sua
tradição é o Deus de Jesus, o Deus de Abraão, Isaque e Jacó que deve estar
envolvido no mundo. E, claro, pessoas de outras religiões dizem que são
outros deuses que estão envolvidos. Então, está não é apenas uma questão
sobre se Deus está envolvido. Qual Deus está envolvido? E como eu frisei
anteriormente, será apenas uma coincidência acontecer de Deus ser o Deus que
Bill pôde mostrar historicamente sua existência e também o Deus para o qual
ele se converteu quando tinha 16 anos de idade.
Resposta do Dr. Craig: A razão de nós não acreditarmos em muitos outros
milagres não é porque não estamos abertos a eles. Pelo contrário, estou
completamente aberto à idéia de que Deus realizou milagres aparte de Jesus.
Mas, por exemplo, em relação a Maomé, com todo respeito, não há nenhuma
evidência de que eles aconteceram. Não há nenhuma afirmação do Corão de que
Maomé realizou milagres. A primeira biografia que temos de Maomé é datada de
no mínimo 150 anos após sua morte, e eu não estou certo se até mesmo lá
existem afirmações sobre milagres. Em relação a Apolônio de Tiana, as
afirmações de milagres são mitos e lendas que não possuem qualquer valor
histórico. Trata-se de invenções pós-cristãs, onde Apolônio é uma figura que
deliberadamente foi construída para competir com os cristãos primitivos.
Então, a razão de alguém não acreditar em milagres nestes casos é porque não
existe nenhuma boa evidência que os sustentem. Mas, em contraste, a maioria
dos estudiosos do Novo Testamento, como Bart Ehrman sabe, acredita que Jesus
de Nazaré executou um ministério de obras milagrosas e exorcismos. Você pode
acreditar que os relatos de milagres contém acréscimos, mas não há dúvida
hoje de que Jesus de Nazaré foi aquilo que ele pensou que era, um realizador
de milagres.
Questão para o Dr. Craig: Dr. Craig, um dos pontos levantados por você mais
cedo acerca das probabilidades foi que devemos comparar as probabilidades da
ressurreição com as probabilidades das outras explicações. E o Prof. Ehrman
tem esta história de que ele não acredita e insinuou que não acha que elas
aconteceram. Assim eu gostaria apenas de ler alguns versículos do evangelho
de Lucas e lhe dar a chance de comentar sobre estes versículos e dizer,
baseado no que o Prof. Ehrman disse, se é a sua visão ou a dele que faz mais
sentido à luz destes versículos. Então, a passagem está em Lucas 24 e é
quando Jesus apareceu aos dois homens no caminho de Emaús e eles não o
reconheceram. Ele está conversando com eles e eles não o reconheceram. E
eles falaram sobre todas as coisas que aconteceram, que eles estavam
confusos e que não sabiam o que estava acontecendo. Então Jesus disse a
eles, “Como vocês custam a entender e como demoram a crer em tudo o que os
profetas falaram! Não devia o Cristo sofrer estas coisas, para entrar na sua
glória?” E começando por Moisés e todos os profetas, explicou-lhes a
respeito dele em todas as escrituras. Ao se aproximarem do povoado para o
qual estavam indo, Jesus fez como quem ia mais adiante. Mas eles insistiram
muito com ele: “Fique conosco, pois a noite já vem; o dia está quase
findando”. Então ele entrou para ficar com eles. Quando estava à mesa com
eles, tomou o pão, deu graças, partiu-o e o deu a eles. Então os olhos deles
foram abertos e eles o reconheceram, e ele desapareceu da vista deles.
Perguntaram-se um ao outro: “Não estava queimando o nosso coração, enquanto
ele nos falava no caminho e nos expunha as Escrituras?”.
Interrupção do Dr. Craig: E qual é sua questão sobre esta passagem? Não
estou certo qual é sua questão.
Continuação da questão ao Dr. Craig: A questão é: você sabe que o Prof.
Ehrman argumentou que estes documentos antigos não são unicamente para o
propósito de estabelecer evidências históricas para os eventos, mas que eles
podem ser usados mais retoricamente. Assim, a questão é, poderiam estes
versículos ser uma pintura da origem da fé cristã, uma vez que, como Dr.
Ehrman argumentou, os primeiros seguidores de Jesus abriram as escrituras e
encontraram referências para o servo sofredor que é exaltado por Deus?
Porque se você observar estes versículos, eles não dizem que seus corações
queimaram porque eles tocaram sua carne, ouviram sua voz e que isto
significava que Deus havia realizado um milagre, que então eles tinham a
evidência e que falariam dela para todos. Eles dizem que seus corações
queimaram quando eles abriram as escrituras.
Resposta do Dr. Craig: Eu acho que esta é uma maneira plausível de ler esta
passagem, esta que você sugeriu. Mas, claro, isto não está no coração do meu
caso esta noite. Eu não estou construindo o caso que eu apresentei hoje com
base em passagens com esta. Eu construí meu caso sobre quatro fatos
fundamentais que são, penso, atestados por testemunhos múltiplos e
independentes, por critérios de embaraçamento, nos quais a maioria dos
estudiosos no assunto concordaria. Sendo assim, eu não estou supondo nada do
que eu disse esta noite na historicidade da aparição de Jesus no caminho de
Emaús ou na interpretação que você proveu a esta passagem. Isto simplesmente
não faz parte do meu caso.
Agora, no geral, entretanto, permita-me dizer, com respeito à sua idéia dos
discípulos indo à escritura e encontrando Jesus lá, eu acho que todo o caso
que eu expus sobre os quatro fatos é que invalida esta idéia. Nós temos boas
fontes independentes que atestam que Jesus foi sepultado por um membro do
Sinédrio judaico em uma tumba, que esta tumba foi encontrada vazia no
Domingo pela manhã após a crucificação, que vários indivíduos e grupos de
pessoas experimentaram aparições de Jesus, e que eles começaram a acreditar
que ele havia ressuscitado de dentre os mortos. E estas passagens que estão
no Antigo Testamento são tão obscuras e difíceis de encontrar que é
altamente improvável que elas sejam a fonte para a crença na ressurreição,
como o Dr. Ehrman imagina. Em vez disso, elas só podem ter sido descobertas
a posteriori. Uma vez que você acredita na ressurreição de Jesus, então você
vai à escritura procurar textos que comprovam e validam-na. Mas a hipótese
contrária é a velha visão de Bultmann de que de alguma forma ao ler as
escrituras, os seguidores de Jesus começaram a acreditar na ressurreição.
Mas o problema com esta hipótese é que as passagens no Antigo Testamento são
muito obscuras e ambíguas para que eles criassem a idéia da ressurreição com
base nelas. Judeus seguidores de um Messias como Jesus, confrontados com sua
crucificação, ou teriam voltado para suas casas ou teriam conseguido um novo
Messias, mas eles não começariam a acreditar que ele ressuscitou de dentre
os mortos.
Resposta do Dr. Ehrman: Bill continua falando sobre nossas boas fontes
primitivas e continua negligenciando que estas boas fontes foram escritas
40, 50, 60 anos após os eventos e que isto implica que os autores destes
relatos conseguiram suas informações da tradição oral que estava em
circulação ano após ano após ano, quando histórias foram inventadas e
histórias foram alteradas. E, assim, eu não acho que nós devamos sustentar
nossas conclusões nestes quatro fatos. A idéia de que estas passagens eram
muito obscuras a ponto de que ninguém pudesse se basear nelas – estas
passagens estão em Isaías e nos Salmos. Não são passagens escondidas em
algum lugar da carta de Malaquias. Estas passagens eram textos centrais na
vida e na religião judaica, e os discípulos de Jesus demonstraram que eles
foram às escrituras para entender o que os eventos significavam. Isto
também, a propósito, é encontrado nas boas fontes primitivas, que os
discípulos de Jesus fizeram exatamente isto. Então eu acho que esta é uma
explicação completamente plausível para como os discípulos vieram a crer na
ressurreição.
Questão para o Dr. Ehrman: Estou feliz pela oportunidade. Eu acho que
perdemos boas oportunidades para aplaudir! Dr. Ehrman, os historiadores
podem verificar um milagre se tivéssemos testemunhas oculares de que um
milagre aconteceu? Levando em conta seu método histórico, algum milagre já
aconteceu e, se sim, quais? Se não, isto significa que você sempre se
recusará a acreditar em milagres?
Resposta do Dr. Ehrman: Boa questão, obrigado! Vejamos, “mesmo se você tiver
testemunhas oculares”. Suponha que nos anos 1850, nós temos um relato de um
pastor de uma igreja do Kansas que andou sobre um lago durante as festas de
Julho e que tinham 12 pessoas que o viram fazer isto. O historiador terá de
avaliar este relato e perguntar, isto provavelmente aconteceu ou não? Agora,
estas testemunhas oculares disseram que isto aconteceu. Mas existem outras
possibilidades que qualquer um pode imaginar. Poderia haver pedras no lago,
por exemplo. Ele poderia estar distante o suficiente para que eles não o
vissem. Existem outras possibilidades que você poderia pensar. Se você está
tentando estabelecer o que aconteceu pela probabilidade, qual é a
probabilidade de um ser humano poder andar sobre um lago a não ser que ele
esteja congelado? A probabilidade é virtualmente zero porque, na verdade, o
ser humano não pode fazer isso. E se você acha que os seres humanos podem
fazer isto, então me apresente uma instância onde eu possa conferir. Nenhum
de nós pode andar sobre um lago. Ninguém em nosso planeta pode. Bilhões de
pessoas que já viveram não puderam. Então, sendo assim, o historiador vai
concluir que provavelmente Joe Smith, o pastor desta igreja, provavelmente
andou sobre o lago? Eu acho que não. Historiadores não vão concluir que ele
andou sobre o lago porque um milagre simplesmente é uma violação da maneira
pela qual a natureza naturalmente trabalha. Assim, você nunca poderá
verificar um milagre com base em testemunhos oculares. Segundo, além disso,
nós aqui não estamos falando sobre alguém que viveu nos anos 1850. Estamos
falando sobre alguém que viveu há 2000 anos, e nós absolutamente não temos
relatos de testemunhas oculares. Os relatos que temos são de pessoas que
acreditavam nele. Não se trata de relatos desinteressados. São narrativas
contraditórias e narrativas que foram escritas 30, 50, 60 anos depois dos
eventos.
Resposta do Dr. Craig: Eu concordo que a ressurreição de Jesus é
naturalmente impossível. Mas está não é a questão. A questão é, é improvável
que Deus tenha ressuscitado Jesus de dentre os mortos? E o Dr. Ehrman não
pode fazer este julgamento porque ele afirma que os historiadores não podem
fazer declarações sobre Deus. Sendo assim, ele está preso em uma
autocontradição esta noite. Por um lado, ele diz que o historiador não pode
dizer nada sobre Deus, por outro, ele diz que é improvável que Deus tenha
ressuscitado Jesus de dentre os mortos; e isto é simplesmente uma
autocontradição.
Um dos embaraços do argumento de Hume era que ele sustentava que uma pessoa
que vivesse nos trópicos jamais poderia aceitar testemunhos de viajantes de
que a água poderia existir na forma sólida, como gelo. Assim este homem,
baseado no argumento de Hume, seria conduzido a negar fatos perfeitamente
naturais dos quais nós temos evidências em abundância apenas porque estes
fatos contradizem o que ele conhecia. E exatamente da mesma forma, este
argumento que ele nos deu seria um impedimento à ciência. Se você diz que
nós jamais teremos testemunhos suficientes – evidência suficiente – para
acreditar em alguma coisa que contradiz o caminho normal da natureza
trabalhar.
Questão para o Dr. Craig: Obrigado! Nós estamos falando aqui sobre
evidências independentes e imparciais. Então eu estava pensando se vocês
dois podem apresentar evidências que sustentam seus pontos de vista fora da
literatura canônica cristã.
Resposta do Dr. Craig: O fato é que nós não estamos trabalhando com fontes
desinteressadas. Mas, veja, esta é uma característica de toda história
antiga. As pessoas do mundo antigo não escreviam relatos desinteressados;
todos tinham um ponto de vista. Assim, os historiadores devem levar isto em
consideração ao investigar a história. O mesmo fazem os estudiosos a
respeito dos evangelhos. Eles perguntam, qual é a credibilidade destes
eventos dado que as narrativas vêm de cristãos? E uma maneira de rodear este
problema é através de múltiplos e independentes depoimentos, porque se uma
tradição ou um evento é independente e multiplamente atestado por fontes
antigas, então é muito improvável que esta tradição tenha sido inventada
porque, do contrário, você não a teria atestada por fontes independentes. E,
assim, os estudiosos costumam aceitar um evento que é atestado por, digamos,
duas ou três fontes independentes. Mas no caso da tumba vazia e do
sepultamento, nós temos cinco ou seis fontes independentes. Então, aparte de
uma predisposição contra os milagres, não há nenhuma boa razão para negar
que o coração histórico destas narrativas, especialmente quando se observa
que nós não estamos falando sobre fontes 30, 40, 60 anos posteriores aos
eventos. Estamos falando de tradições nas quais estes relatos são baseados,
tradições que se encontram em algum lugar entre cinco a sete anos após a
crucificação. Comparadas com as fontes da histórica greco-romana, os
evangelhos ganham com sobra, pois os relatos com os quais os historiadores
greco-romanos têm de trabalhar geralmente são datados de centenas de anos
após os eventos, geralmente envolvendo poucas testemunhas oculares e
geralmente narradas por alguém completamente tendencioso aos fatos. E ainda
assim os historiadores do período greco-romano reconstroem o curso da
história do mundo antigo. E como eu disse, N. T. Wright disse que a tumba
vazia e as aparições de Jesus são tão certas como a morte de Augusto César
em 14 d.C. e a queda de Jerusalém em 70 d.C.. E mesmo que você pense que
isto é um exagero, eu acho que estes fatos são mais bem atestados do que
vários outros eventos na história antiga que nós comumente aceitamos como
fatos históricos.
Resposta do Dr. Ehrman: Então, você está pedindo fontes não canônicas. Eu
acho que a única razão de Bill não ter te respondido é porque as fontes
não-canônicas não sustentam a posição dele. As fontes não-canônicas pagãs,
na verdade, nunca se referiram à ressurreição de Jesus até alguns séculos
depois da crucificação. Na verdade, Jesus não aparece em nenhuma fonte
não-canônica pagã até 80 anos depois de sua morte. Então, ele claramente não
teve um grande impacto no mundo pagão. O historiador romano Josefo menciona
Jesus, mas não acreditava em sua ressurreição. Existem fontes não-canônicas
que falam sobre a ressurreição, mas infelizmente todas elas, embora sejam
evangelhos não-canônicos, narram o evento de um jeito que discorda da
reconstrução de Bill. Eles não acreditam que Jesus ressuscitou fisicamente
de dentre os mortos. Para prova disto, apenas leia o relato do Segundo
Tratado do Grande Seth ou o Apocalipse de Pedro. Nós temos um relato no qual
Jesus sai da tumba, o evangelho segundo Pedro; é um relato apocalíptico.
Jesus sai de sua tumba tão alto como um arranha-céu; segundo este relato,
existe uma cruz que fala dos céus, certamente um relato lendário de pouco
uso aos historiadores que querem saber o que aconteceu.
Moderador: Agora, podemos aplaudir!
Fechamento: Chegou a hora de terminarmos o debate desta noite, e eu gostaria
de novamente agradecer aos patrocinadores – o Center for Religion, Ethics,
and Culture e o Campus Christian Fellowship – a nosso moderador, William
Shea. Vocês foram uma platéia brilhante com ótimas questões, e nós
agradecemos por estarem aqui. Temos uma mesa lá atrás com alguns livros de
ambos os debatedores disponíveis junto com outros livros. Finalmente, eu
gostaria de agradecer novamente aos estudiosos William Lane Craig e Bart D.
Ehrman, por compartilharem seu tempo e seu talento conosco.
————-
Traduzido por Eliel Vieira
Debate: Francis Collins X Richard Dawkins novembro 4, 2009
Posted by Douglas Lisboa in : Debates religiosos , add a commentMas, na verdade, criacionismo e ID estão intimamente relacionados com uma questão maior, não resolvida, na qual o papel do agressor se inverte: a religião consegue se manter ante o progresso da ciência? O debate antecede a Darwin, mas a posição anti-religiosa tem sido promovida com crescente insistência recentemente por cientistas irritados com o ID e excitados, talvez intoxicados, pela crescente habilidade de suas disciplinas em mapear, quantificar e mudar a natureza da experiência humana.
Ele também é um cristão decidido, que se converteu do ateísmo aos 27 anos de idade e que agora encontra tempo para aconselhar os jovens evangélicos cientistas sobre a forma de declarar a sua fé em uma ciência largamente agnóstica. Seu best-seller, “A Linguagem de Deus” (Editora Gente), contém alguns dos argumentos que ele trouxe para este debate de 90 minutos que TIME organizou entre Dawkins e Collins em nossos escritórios no Time & Life Building, na cidade de Nova York, em 30 de setembro.
TIME: Professor Dawkins, para uma pessoa que verdadeiramente entende sobre ciência, então Deus deve ser considerado um delírio, como o título do seu livro sugere?
DAWKINS: A questão se existe um criador sobrenatural, um Deus, é uma das questões mais importantes que nós temos que responder. Eu acho que esta é uma questão científica. Minha resposta é que não existe.
TIME: Dr. Collins, você acredita que a Ciência é compatível com a fé cristã?
COLLINS: Sim. A existência de Deus é verdadeira ou falsa. Mas chamar esta questão de científica implica que as ferramentas que a ciência possui podem prover a resposta. De minha perspectiva, Deus não pode ser completamente contido dentro da natureza e, portanto, está fora da capacidade da ciência prover uma resposta sobre a existência de Deus.
TIME: Stephen Jay Gould, um paleontologista de Havard, ficou famoso por argumentar que religião e ciência podem coexistir por ocuparem compartimentos separados. Vocês dois parecem discordar disto.
COLLINS: Gould estabelece um muro artificial entre as duas visões do mundo que não existe na minha vida. Por acreditar no poder criativo de Deus em ter trago tudo para existência no começo, penso que estudar o mundo natural é a melhor oportunidade que tenho para observar a majestade, a elegância e a complexidade da criação de Deus.
DAWKINS: Eu acho que a separação dos compartimentos por Gould foi uma jogada puramente política para trazer pessoas religiosas para o campo da ciência. Mas esta idéia é muito vazia. Existem muitos lugares onde a religião não pode se manter ao largo da relva científica. Qualquer crença em milagres é plenamente contraditória não apenas com os fatos da ciência, mas também com o espírito da ciência.
TIME: Professor Dawkins, você acha que a teoria evolucionária de Darwin faz mais do que simplesmente contradizer a história do Gênesis.
DAWKINS: Sim. Por séculos o mais poderoso argumento para a existência de Deus era o chamado “argumento do Design”: seres vivos são tão belos e elegantes e aparentemente tão complexos que eles só podem ter sido criados por um designer inteligente. Mas Darwin nos deu uma explicação muito mais simples. Seu caminho é gradual, uma crescente melhoria de um início muito simples, trabalhado passo a passo para a maior complexidade, elegância e perfeita adaptação. Cada etapa não é tão improvável para nós entendermos. Mas quando você as reuni cumulativamente através de milhões de anos, você obtém estes monstros de improbabilidade, como o cérebro humano. Isto deve nos alertar contra aqueles que, novamente, dizem que o fato de alguma coisa ser complicada, Deus deve ter feito esta coisa.
COLLINS: Eu não vejo como a explicação básica do Professor Dawkins sobre a evolução seja incompatível com um Deus que tenha a projetado.
TIME: Quando, se este projeto aconteceu?
COLLINS: Estando fora da natureza, Deus está também fora do Espaço e do Tempo. Assim, no momento da criação do universo, Deus poderia ter ativado a evolução, com total conhecimento do que ela geraria, talvez até incluindo nossa conversa agora. A idéia de que ele poderia prever o futuro e também nos dar um espírito e livre-arbítrio para tomar nossas decisões se torna completamente aceitável.
DAWKINS: Eu acho que está é uma tremenda evasão de responsabilidade. Se Deus quisesse criar a vida e os seres humanos, seria um pouco estranho ele escolher esta forma extraordinariamente complicada, esperar 10 bilhões de anos antes da vida começar, então esperar por outros 4 bilhões de anos até ter seres humanos capazes de adorar, pecar e todas estas outras coisas em que as pessoas religiosas estão interessadas.
COLLINS: Quem somos nós para dizer que esta é uma forma estranha de se fazer uma coisa? Eu não acho que seja do propósito de Deus fazer sua intenção absolutamente óbvia para nós. Se seu propósito era ser uma divindade que nós devêssemos buscar sem sermos forçados a isso, não teria sido sensato a ele usar o mecanismo de evolução sem estabelecer óbvias placas rodoviárias que revelem seu papel na criação?
TIME: Os livros de ambos sugerem que se as constantes do universo, as seis ou mais características de nosso universo, variassem de alguma forma, a vida seria impossível. Dr. Collins, você pode nos dar um exemplo?
COLLINS: A constante gravitacional é um exemplo. Se ela fosse uma parte em 100 milhões de milhões menor, então a expansão do universo após o Big Bang não teria acontecido do modo necessário para que a vida pudesse existir. Quando você olha para esta evidência, fica muito difícil aprovar a visão de que isto foi apenas sorte. Mas se você está disposto a considerar a possibilidade do designer, esta idéia torna-se uma explicação bastante plausível de como as coisas aconteceram, o mesmo acerca de outro evento ainda mais improvável – nossa existência.
DAWKINS: Pessoas que acreditam em Deus concluem que deva existir um ser divino apertador de botões que mantém esta meia dúzia de botões de constantes apertados para deixá-las exatamente no valor correto. O problema é dizer que, porque uma coisa é improvável, nós precisamos de Deus para explicá-la. O próprio Deus seria ainda mais improvável. Os físicos adotam outras explicações. Uma delas é dizer que estas seis constantes não são livres para variar. Alguma teoria unificada acabará por mostrar que estas constantes são tão absolutas quanto a circunferência e o diâmetro de um circulo. Outra alternativa existente é a “teoria do multiverso”. Ela diz que talvez o universo em que estamos seja apenas um dentre uma vasta quantidade de universos. A grande maioria não vai conter vida porque eles têm uma má constante gravitacional ou esta ou aquela constante errada. Mas como o número de universos existentes cresce, temos a chance de um pequeno número de universos tenham a exata regularização destas constantes.
COLLINS: Esta é uma escolha interessante. Ignorando a resolução teórica, que eu penso ser improvável, você tem de dizer que existem zilhões de universos paralelos lá fora que nós não podemos observar neste momento ou aceitar que existiu um plano. Eu verdadeiramente acho que o argumento da existência de um Deus que planejou o universo mais atraente que o borbulhamento de todos estes multiversos. Então a navalha de Occam – Occam dizia que você deve escolher a explicação que for mais simples e direta – me conduz mais a acreditar em Deus do que no multiverso, que parece ser apenas uma extensão de sua imaginação.
DAWKINS: Eu aceito que podem existir coisas muito maiores e incompreensíveis além do que nós podemos imaginar. O que eu não entendo é porque você invoca a improbabilidade e ainda não admite que está atirando no próprio pé por postular alguma coisa tão improvável como a palavra “Deus”.
COLLINS: Meu Deus não é improvável para mim. Ele não precisa de uma história de criação nem ser bem ajustado por alguma outra coisa. Deus é a resposta para todas as questões “como isto veio a ser o que é?”.
DAWKINS: Eu penso que esta é a mãe e o pai de todas as evasões. Um dos objetivos honestos do cientista é descobrir de onde uma aparente improbabilidade vem. Agora Dr. Collins diz, “Bem, Deus fez tudo. E Deus não precisa de explicação porque Deus está fora de tudo isto”. Bem, que incrível evasão da responsabilidade de explicar. Cientistas não fazem isso. Cientistas dizem, “Estamos trabalhando nisto. Estamos lutando para compreender”.
COLLINS: Certamente a ciência deve continuar para ver se podemos encontrar evidencias para os multiversos que podem explicar porque nosso universo parece ser bem ajustado. Mas eu discordo do pressuposto de que qualquer coisa que possa estar fora da natureza deva ser excluída de nossa conversa. Esta é uma visão empobrecida para o tipo de questões que nós humanos podemos perguntar, como “Por que estou aqui?”, “O que acontece após a morte?”, “Existe um Deus?”. Se você se recusa a relevância destas questões, você terminará com uma probabilidade zero de Deus após examinar o mundo natural porque ele não te convence a base de provas. Mas se sua mente está aberta sobre a possibilidade de Deus existir, você pode apontar para os aspectos do universo que são consistentes com esta conclusão.
DAWKINS: Para mim, a abordagem correta é dizer que nós somos profundamente ignorantes nestes assuntos. Nós precisamos trabalhar neles. Mas repentinamente dizer que a resposta é Deus – parece-me fechar a discussão.
TIME: A resposta pode ser Deus?
DAWKINS: Pode ser alguma coisa incrivelmente grande e incompreensível e além do nosso presente entendimento.
COLLINS: Isto é Deus.
DAWKINS: Sim. Mas poderia ser qualquer um dos bilhões de deuses. Poderia ser o deus dos marcianos ou dos habitantes da Alpha Centauri. A chance de ser um Deus particular, Yaweh, o Deus de Jesus, é infimamente pequena – pelo menos, o ônus está com você para demonstrar porque você pensa que este é o caso.
TIME: O livro de Gênesis tem levado muitos protestantes conservadores a se oporem à evolução e alguns ainda insistem que a Terra possui apenas 6000 anos de idade.
COLLINS: Existem crentes sinceros que interpretam os primeiros capítulos de Genesis de forma muito literal, o que é inconsistente, francamente, com o conhecimento da idade do universo ou como organismos vivos são relacionados uns com os outros. Santo Agostinho escreveu que, basicamente, não é possível entender o que estava sendo descrito em Gênesis. Ele não foi concebido como um texto científico. Ele foi concebido como uma descrição do que Deus é, quem nós somos e como deve ser nossa relação com Deus. Agostinho explicitamente adverte contra as perspectivas muito restritas que podem fazer nossa fé correr risco de parecer ridícula. Se você der um passo para trás e fugir desta interpretação restrita, o que a Bíblia descreve é muito consistente com o Big Bang.
DAWKINS: Os físicos estão trabalhando no Big Bang e um dia eles podem ou não podem resolver esta questão. Entretanto, o que o Dr. Collins acabou de fazer – posso te chamar de Francis?
COLLINS: Oh, por favor Richard, claro.
DAWKINS: O que Francis acabou de dizer sobre o Gênesis foi, claro, uma pequena desavença particular entre ele e seus amigos fundamentalistas…
COLLINS: Não tão particular. É um tanto pública. [risos]
DAWKINS: …seria impróprio para mim me meter nesta questão e sugerir que ele salvaria a si próprio de uma enorme quantidade de problemas se ele simplesmente deixasse de dar a eles o que eles querem. Por que se preocupar com estes palhaços?
COLLINS: Richard, eu acho que não prestamos um serviço para o diálogo entre ciência e fé zombando das pessoas, chamado-as de apelidos. Isto inspira o fundamentalismo. Ateístas algumas vezes são arrogantes em suas considerações, e zombar da fé como algo que apenas um idiota se juntaria provavelmente não vai ajudar o seu caso.
TIME: Dr. Collins, a ressurreição é um argumento essencial da fé cristã, mas narrativas como o nascimento virginal e os milagres não minam o método científico, que depende da constância das leis da natureza?
COLLINS: Se você está de acordo em responder sim para um Deus fora da natureza, então não há nenhuma inconsistência em Deus escolher invadir o mundo natural de uma maneira que pareça milagrosa em raras ocasiões. Se Deus fez as leis naturais, por que ele não poderia violá-las em um momento particular e significante? E se você aceita a idéia que Cristo era também divino, o que eu creio, então a ressurreição não é, em si mesma, um grande salto lógico.
TIME: A noção de milagres não anula a ciência?
COLLINS: De forma nenhuma. Se você estiver no campo em que eu estou, um lugar onde ciência e fé podem se interagir, não há nada contraditório.
DAWKINS: Se alguma vez houve um “bater a porta” na cara da investigação construtiva, isto se chama milagre. Para um camponês medieval, um rádio lhe pareceria como um milagre. Todo o tipo de coisas que nós classificamos como “milagre”, à luz da ciência hoje, faríamos da mesma forma como a ciência medieval classificaria um Boeing 747 como um milagre. Francis continua dizendo coisas como “De minha perspectiva como crente”. Depois de comprar uma posição de fé, então, você se encontra perdendo seu ceticismo natural e sua credibilidade científica. Desculpe por ser tão brusco.
COLLINS: Richard, eu até concordo com a primeira parte do que você disse, de verdade. Mas eu desafiaria a declaração de que meus instintos científicos são menos rigorosos que os seus. A diferença é que minha presunção da possibilidade de Deus e, portanto, o supernaturalismo não é zero, e a sua é.
TIME: Dr. Collins, você descreveu o senso moral do ser humano não apenas como um dom de Deus, mas como um sinal de que ele existe.
COLLINS: Existe todo um campo de investigação que surgiu nos últimos 30 ou 40 anos – alguns o chamam de sociobiologia ou psicologia evolutiva – relacionado com nosso senso moral, onde este senso se localiza e por que valorizamos a idéia do altruísmo. Também para localizar as respostas a estas questões em adaptações comportamentais para a preservação de nossos genes. Mas se você acredita, e Richard sabe disto, que a seleção natural opera individualmente, não em grupo, por que então um individuo arriscaria seu próprio DNA fazendo algo altruísta para salvar alguém, arriscando diminuir sua chance de reprodução? De fato, podemos tentar ajudar nossa própria família porque eles partilham de nosso DNA. Ou ajudar alguém esperando que ele nos ajude depois. Mas quando você olha para o que nós realmente admiramos como as mais generosas manifestações de altruísmo, elas não são baseadas em parentesco ou reciprocidade. Um extremo exemplo pode ser Oskar Schindler que arriscou sua vida para salvar mais que mil judeus da câmara de gás. Seu ato contraria sua disposição natural de tentar salvar seus genes. Nós vemos versões menos dramáticas todos os dias. Muitos de nós pensamos que estas qualidades vêem de Deus – especialmente porque justiça e moralidade são dois dos atributos que mais prontamente nos identificam com Deus.
DAWKINS: Posso começar com uma analogia? A maior parte das pessoas entende que o desejo sexual tem haver com propagação de genes. As relações sexuais na natureza tendem a levar para a reprodução e então para mais cópias genéticas. Mas na sociedade moderna, a maior parte das relações envolve contraceptivos, criados precisamente para evitar reprodução. O altruísmo provavelmente tenha tido a mesma origem. Em nosso passado pré-histórico, vivíamos em famílias maiores, cercados por parentes cujos interesses nós queríamos promover, pois eles compartilhavam de nossos genes. Agora vivemos em grandes cidades. Nós não estamos no meio de parentes nem pessoas que vão retribuir nossas boas ações. Isto não importa. Da mesma forma como as pessoas que se envolvem em relações sexuais com contraceptivos não estão conscientes de estarem sendo motivadas por um comando para ter bebês, não passa pela nossa mente que a razão para fazermos coisas boas está baseado no fato que nossos ancestrais primitivos viviam em grupos pequenos. Esta me parece ser uma explicação bastante plausível sobre de onde veio nosso desejo por moralidade e bondade.
COLLINS: Argumentar que nossos bons atos são apenas uma falha darwiniana de comportamento não faz justiça com o senso que todos nós temos sobre os absolutos que estão envolvidos acerca do bem ou mal. A evolução pode explicar algumas características da lei moral, mas não pode explicar porque ela deve ter qualquer significado real. Se é apenas uma conveniência evolutiva, não há realmente nenhuma coisa como bem ou mal. Mas, para mim, nosso senso moral é bem mais que isso. A lei moral é um motivo para pensar como plausível não apenas um Deus que estabeleceu o universo em movimento, mas um Deus que se preocupa com o ser humano, porque parecemos singulares entre as criaturas do planeta para ter este bem-desenvolvido senso de moralidade. O que você disse implica que fora da mente humana, sintonizada por processos evolutivos, o bem e o mal não tem nenhum significado. Você concorda com isso?
DAWKINS: Esta questão que você levantou não tem sentido para mim. Bem e mal – Eu não acredito que exista pendurado por aí algo chamado bem e alguma coisa chamada mal. Eu penso que existem coisas boas que acontecem e coisas más que também acontecem.
COLLINS: Eu acho que esta é a fundamental diferença entre nós. Estou feliz por identificarmos isto.
TIME: Dr. Collins, eu sei que você favorece a abertura de novas linhas de pesquisa com células-tronco. Mas o fato de a fé ter influenciado algumas pessoas a se posicionarem contra estas pesquisas não dá a idéia de que a religião está impedindo a ciência de salvar vidas?
COLLINS: Permita-me dizer primeiramente que falo como cidadão e não como representante do Poder Executivo do governo americano. A impressão de que as pessoas de fé são uniformemente contra as pesquisas com células-tronco não está documentada em estudos. De fato, muitas pessoas de forte convicção religiosa acreditam que estas pesquisas podem ser uma abordagem moralmente suportável.
TIME: Mas na medida em que uma pessoa argumenta baseada na fé ou na Escritura além da razão, como os cientistas podem responder?
COLLINS: A fé não faz oposição à razão. A fé repousa sobre a razão, mas com o adicional componente da revelação. Assim, este tipo de discussão entre cientistas e crentes acontece bem facilmente. Mas nem os cientistas nem os crentes encaram sempre os princípios precisamente. Os cientistas podem ter seus julgamentos embaçados por suas aspirações profissionais. E a pura verdade é que a fé, que você pode imaginar como uma água pura e espiritual, se encontra em garrafas enferrujadas chamada seres humanos, então, algumas vezes, os bons princípios da fé podem ser distorcidos em determinadas circunstâncias.
DAWKINS: Para mim, questões morais como as pesquisas com células-tronco são mais relativas a se é imputado sofrimento. Neste caso, claramente não é. Os embriões não possuem sistema nervoso. Mas esta não é a questão discutida publicamente. A questão é: eles são humanos? Se você é um moralista absoluto você dirá “Estas células são seres humanos e, portanto, eles merecem algum tipo de tratamento moral especial”. O moralismo absoluto não deve vir da religião, mas geralmente vem.
Nós abatemos animais não humanos em fazendas, e estes animais possuem sistema nervoso e sofrem. Pessoas de fé não estão muito interessadas no sofrimento deles.
COLLINS: Os humanos possuem alguma diferença moral significante em relação às vacas, em geral?
DAWKINS: Os humanos possuem mais responsabilidade moral, talvez porque eles possuem a capacidade de pensar racionalmente.
TIME: Vocês têm alguma conclusão?
COLLINS: Eu apenas gostaria de dizer que com pouco mais de 25 anos como cientista e cristão, eu não encontrei absolutamente nenhum conflito entre concordar com praticamente todas as conclusões de Richard sobre o mundo natural, e também dizer que eu ainda sou capaz de aceitar e abraçar a possibilidade de que existem questões sobre o mundo natural que a ciência não é capaz de prover resposta – questões sobre “por que?” ao invés de questões sobre “como?”. Estou interessando nas questões “por que?”. Encontrei várias destas respostas no reino espiritual. Em nenhum outro lugar mais.
DAWKINS: Minha mente não é fechada, como você ocasionalmente sugeriu, Francis. Minha mente está aberta para o mais maravilhoso leque de futuras possibilidades, que eu não posso sequer sonhar, nem você, nem ninguém. Eu sou cético quanto à idéia de que qualquer revelação maravilhosa que a ciência traga no futuro se torne uma religião histórica particular com que as pessoas têm sonhado. Quando começamos e conversamos sobre as origens do universo e as constantes físicas, eu propus o que eu pensei ser bons argumentos contra um designer inteligente sobrenatural. Parece-me uma idéia digna. Refutável – mas, no entanto, grande e abrangente o suficiente para ser digna de respeito. Não concebo os deuses do Olímpio ou Jesus vindo aqui e morrendo numa cruz como dignos ou grandiosos. Se existe um Deus, ele é um conjunto muito maior e muito mais incompreensível do que qualquer coisa que teólogos ou religiosos jamais propuseram.
Dawkins está surfando na onda literária ateísta. Em 2004, o livro “The End of Faith” [O Fim da Fé], escrito pelo estudante em neurociência Sam Harris, vendeu mais de 400.000 cópias. Harris escreveu outro livro, “Letter to a Christian Nation” [Carta a uma Nação Cristã], que está na 14ª posição entre os mais vendidos da Time. Em Fevereiro passado, o filósofo Daniel Dannett (Universidade de Tufts), produziu “Breakink the Spell: Religion as a Natual Phenomenon” [Quebrando o Encanto: Religião como um Fenômeno Natural], que vendeu menos cópias, mas ajudou a disseminar o debate na arena pública.
Se Dennett e Harris são quase cientistas (Dennett executa um programa multidisciplinar científo-filosófico) os autores de outra parte de livros seculares agressivos são consagrados: em “Moral Minds” [Mentes Morais], o biólogo de Havard Marc Hauser explora as – não divinas – origens de nosso senso de certo e errado; em “Six Impossible Things Before Breakfast” [Seis Coisas Impossíveis Antes do Café da Manhã] pelo auto-intitulado “ateu-reducionista-materialista” biólogo Lewis Wolpert, a religião é uma dessas coisas impossíveis; Victor Stenger, um físico-astrônomo, tem um livro a ser lançado em breve chamado “God: The Failed Hypothesis” [Deus: A Hipótese Falhou]; Ann Druyan, viúva do arqui-cético Carl Sagan, editou alguns textos não publicados de Sagan sobre Deus e sua ausência em um livro, “The Varieties of Scientific Experience” [As Variedades da Experiência Científica], a ser lançado este mês.
Dawkins e seu exército, obviamente, têm um enxame de articulados oponentes teológicos. Mas os mais ardentes entre eles na verdade não se preocupam muito com a ciência e um argumento se sustenta parte sobre a Escritura e parte sobre a Tabela Periódica não convence ninguém. A maior parte dos americanos ocupa o meio: “nós queremos tudo”. Nós queremos comemorar os avanços da ciência e ainda nos humilharmos no Sabbath. Queremos acesso a ambos, MRIs e milagres.
Queremos debates sobre temas como células-tronco sem admitir que as posições divergentes sejam tão intrinsecamente hostis como discussões infrutíferas. E para equilibrar a formidável posição de Dawkins, nós buscamos aqueles que possuem convicções religiosas, mas que possuam credibilidade científica para defender a posição de que Ciência e Deus estão em harmonia – na verdade, que a Ciência seja de Deus.
Conciliadores informais recentemente se tornaram mais ouvidos. Joan Rougharden, biólogo da Universidade de Stanford, acaba de lançar “Evolution and Christian Faith” [Evolução e Fé Cristã], que prevê o que ele chama de uma “forte defesa cristã” da biologia evolutiva, ilustrando os principais conceitos da disciplina com passagens bíblicas. O entomologista Edward O. Wilson, um famoso cético da fé, escreveu “The Creation: An Appeal to Save Life on Earth” [A Criação: Um apelo para salvar a vida na Terra], exortando os crentes e não-crentes a unirem-se em torno da conservação do planeta. Mas o principal destes debatedores em ambos os assuntos é Francis Collins.
O cardeal católico romano Christoph Schönborn apelidou os mais fervorosos cientistas desafiadores da fé de “cientismos” ou “evolucionistas” (aqueles que seguem a ciência ou a evolução como uma religião), uma vez que esperam que a ciência possa não apenas servir de ponto de referência, mas sim substituir a religião como cosmovisão e critério de avaliação.
Nem todos os que trabalham com um tubo de ensaio se encaixam nessa concepção. Contudo, uma proporção crescente dos profissionais vem experimentando o que uma grande pesquisa chama de “ultraje sem precedentes”, relacionado aos insultos observados contra a pesquisa científica e a racionalidade, advindas de situações como a dita influência dos direitos cristãos sobre as políticas científicas da administração Bush, da fé fanática dos terroristas no 11 de setembro ou das reivindicações recentes feitas pelo design inteligente.
Alguns se tornaram radicais o bastante para levantar uma velha bandeira: a idéia de que, diferentemente de serem respostas complementares ao desconhecido, ciência e religião estão em extremos opostos — ou, como definiu de forma simples o psicólogo Paul Bloom, da Yale, “Religião e ciência estarão em constante colisão”.
As prateleiras das livrarias parecem estar transbordando de livros escritos por cientistas que descrevem uma batalha mortal entre ciência e Deus — com a ciência como vencedora, ou pelo menos enfraquecendo as verdades que sustentam a fé.

